Onde o silêncio enterra o grito


A cada instante, um sopro se dissolve como bruma ao amanhecer; um sorriso, ainda em esboço, recolhe sua promessa; um olhar, antes aceso, se apaga como uma estrela arrancada do céu antes da noite chegar.

A cada dia, destinos que deveriam florir são ceifados pela raiz: filhos que jamais ouvirão canções de ninar, casas que perderão o cheiro do pão e do abraço, mesas que guardarão — para sempre — um vazio que ninguém aprenderá a preencher.
E crianças… crianças que herdarão cicatrizes invisíveis, tatuadas no silêncio que lhes seguirá pelos corredores da vida.

Nas margens escuras dessa sociedade febril, emergem criaturas disfarçadas de homens: predadores que carregam nos olhos a arrogância dos que confundem a própria sombra com poder.
Recebem amor como quem recebe um dom divino, mas devolvem treva, ruína, ausência — uma violência que não nasce do impulso, mas da miséria da alma.
São aqueles que tocam, sem entender, a sacralidade de uma vida que jamais lhes pertenceu.
Aqueles que acreditam que o mundo cabe dentro da palma fechada de seus punhos.

E eu me pergunto:
Quem foi que soprou no ouvido deles a mentira de que podem moldar o destino de uma mulher?
Quem lhes concedeu o delírio de julgar, decidir, sentenciar a existência que não brotou de seus ossos?

Que sociedade somos, que assiste ao colapso de tantas Clarisses e apenas ajeita a cadeira, como se a tragédia fosse parte da mobília?
Que justiça manca é essa que tropeça em cadáveres, tamborila os dedos e ainda diz que não viu?
Que políticos se escondem atrás de discursos gastos enquanto o país sangra na porta de casa?

Até quando recolheremos nomes interrompidos, vidas arrancadas antes de se escreverem por inteiro?
Até quando o silêncio — esse velho cúmplice — será nosso idioma nacional?

Porque cada mulher assassinada é um continente que afunda, um idioma que morre, uma constelação que se apaga do mapa do humano.
Cada ausência é um terremoto que não termina, uma maré que nunca recua.
E cada dia sem reação é um epitáfio que nós mesmos assinamos, confessando que falhamos, que fomos pequenos, que deixamos o horror passar pela porta sem perguntar o nome.

Não é apenas a vida delas que está sendo arrancada — é a nossa capacidade de ser gente que está sendo esfolada junto.

Ou despertamos agora, com a fúria lúcida dos que se recusam a aceitar o fim,
ou seremos lembrados como a geração que viu o feminicídio cair do céu como chuva: inevitável, repetida, natural.

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