Crítica ao meu pensamento.

Hoje, na escola em que trabalho, houve uma oração coletiva. Permaneci em silêncio. Não por indiferença ou desdém, mas por respeito. Respeito às pessoas, às crenças e ao espaço de cada um. Ainda assim, enquanto as palavras eram ditas, eu pensava. E pensar, para mim, é inevitável.
Tentei manter uma postura intelectualmente honesta e eticamente respeitosa: silenciar por respeito ao outro, sem abdicar do pensamento crítico.

As falas da oração me parecem tocar em alguns dos nós centrais da filosofia da religião e da ética, especialmente o problema do mal.
Quando se diz “Deus está sempre ao nosso lado” ou “se aconteceu, foi porque Deus quis”, pressupõe-se um ser onipresente, onipotente e onisciente. O conflito surge exatamente aí: se esse ser pode tudo, sabe tudo e está em todo lugar, como conciliar essa presença com a brutalidade concreta do mundo?

O argumento clássico é simples e incômodo:
se Deus pode impedir o mal e não impede, Ele não é totalmente bom.
Se quer impedir, mas não pode, não é onipotente.
Se não sabe, não é onisciente.

Não é um ataque à fé; é uma tensão lógica que atravessa séculos.
A ideia de que “Deus quis”, quando ocorre um estupro, um assassinato ou um massacre — como em Gaza — desloca a responsabilidade humana para uma entidade abstrata. Isso é perigoso, porque:
anestesia a indignação moral;
relativiza a crueldade humana;
transforma tragédias em “planos divinos”, quando, na prática, são escolhas humanas, políticas, históricas e materiais.

Há ainda outro ponto importante: muitas dessas falas surgem menos como explicações racionais e mais como mecanismos de conforto emocional. Dizer “Deus quis” muitas vezes não explica — apenas tenta tornar suportável o absurdo. O problema é quando esse consolo passa a valer como verdade universal e fecha espaço para o questionamento.

Esses meus pensamentos tocam, de forma implícita, numa visão mais próxima do humanismo ético: se o mal existe nessa escala, ele não pode ser terceirizado. Ele nasce das estruturas, das decisões, das omissões e da crueldade humanas. E, portanto, a responsabilidade de enfrentá-lo também é nossa, não de um ser transcendente.

Estar ali, em um primeiro momento, me causou desconforto. Mas o silêncio ali não foi covardia; foi um tipo de lucidez contextual. Pensar criticamente depois não é desrespeito; é compromisso com a verdade, ainda que ela seja desconfortável.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “onde está Deus?”, mas: o que nós, humanos, estamos fazendo — ou deixando de fazer — uns com os outros?
Essa pergunta não cabe numa oração pronta. Mas é ela que move qualquer ética minimamente séria.

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