Entre o que fomos e o que ainda seremos




2025 não foi um ano para slogans. Foi um ano de fraturas expostas. Nada se resolveu por inteiro, quase nada terminou de fato. Seguimos vivendo numa espécie de parêntese histórico, em que o mundo parece sempre à beira de alguma coisa — sem saber exatamente de quê.

O planeta continuou aquecendo, mas não apenas no termômetro. O clima político seguiu inflamado, as democracias testadas, a paciência coletiva rarefeita. As guerras não pediram licença ao calendário; atravessaram o ano com a mesma indiferença cruel com que atravessam a vida dos que nelas não mandam nada. Gaza seguiu sendo uma ferida aberta, a Ucrânia um lembrete incômodo de que a guerra voltou a ser “normal”, e o discurso da paz, cada vez mais, virou peça retórica de cerimônia oficial.

A tecnologia, como sempre, correu na frente. A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a ser presença cotidiana — escrevendo textos, corrigindo provas, sugerindo diagnósticos, criando imagens que parecem sonhos alheios. Houve fascínio e medo, como toda novidade séria provoca. Alguns viram salvação; outros, ameaça. Talvez seja apenas mais um espelho: ela amplia o que somos, não corrige o que falta.

Na política, 2025 foi um ano de julgamentos — nos tribunais e nas mesas de bar. Discursos sobre golpe, democracia, punição e impunidade dividiram opiniões e famílias. A verdade virou campo de batalha sem árbitro confiável. Cada lado escolheu seus fatos, como quem escolhe um time para torcer, e seguiu em frente com convicção suficiente para não escutar.

Na educação, professores seguiram fazendo o que sempre fizeram: sustentando o mundo enquanto ele discute se ainda precisa deles. Salas cheias, reconhecimento curto, cobrança longa. 
Ainda assim, houve aula, houve tentativa, houve cuidado. Porque, no fim, ensinar nunca foi só conteúdo — é insistência.
E no meio de tudo isso, a vida comum continuou acontecendo. Gente se apaixonou, gente se perdeu, gente voltou. 

Houve aniversários, lutos silenciosos, cafés tomados às pressas, domingos preguiçosos, corridas interrompidas pela falta de ar e retomadas pela teimosia. Houve quem sobrevivesse. E isso, por si só, já foi muito.

2025 não foi um ano fácil, mas talvez tenha sido honesto. Ele não prometeu o que não podia cumprir. Escancarou limites, mostrou rachaduras, expôs contradições. E nos deixou uma pergunta incômoda para levar adiante: o que faremos com tudo isso agora que não dá mais para fingir que não vimos?

Se houver algo a agradecer, não é ao ano. É às pequenas resistências: quem continuou pensando, quem continuou cuidando, quem não abriu mão da dignidade mesmo cansado. O resto — o resto a história organiza depois.

Que venha o próximo.
Não melhor por milagre, mas menos cínico.
Já seria um começo.

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