2026
Se me fosse exigida uma única palavra para resumir o meu ano — exigência que aceito com reservas, porque os anos raramente cabem em palavras — eu diria, sem grande entusiasmo e sem falsa modéstia: superação. Não por heroísmo, mas por hábito.
Há uma guerra silenciosa que se trava todos os dias, longe dos discursos e das fotografias: a que se estabelece entre viver, sobreviver e sonhar. Raramente vencemos as três ao mesmo tempo. Quando muito, fazemos acordos provisórios com duas delas.
Poder-se-ia chamar o ano de vitória, ou de conquista, ou ainda de recomeço. Todas essas palavras servem, desde que usadas com parcimônia. A verdade é que os anos se parecem muito quando vistos de longe, e se diferenciam apenas quando examinados de perto — como as pessoas.
Gente chega, gente vai. Sentimentos nascem com promessas exageradas e morrem, quase sempre, de causas naturais. Há decepções que nos educam, orgulhos que nos enganam, frustrações que nos revelam, e surpresas que, por descuido, ainda nos permitem acreditar.
E apesar dessa repetição quase burocrática da existência, cada ano insiste em ser único. Talvez não por mérito próprio, mas porque somos outros ao final dele.
Assim se encerra mais um período de translação em torno da nossa estrela — feito notável apenas pela regularidade. Não houve milagres, nem catástrofes definitivas. Houve vida. E isso, convenhamos, já é bastante.
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