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Mostrando postagens de 2026

Passarinhos

Há um passarinho pequeno demais para entender por que o céu, às vezes, desaba de dentro para fora. Ele abre as asas sem saber que o vento que o sustenta… também está se partindo. Ao redor, felinos. Não escondidos — vivos, pulsando, respirando perto demais. Olhos que brilham como promessa e ameaça no mesmo instante. Carregam nos dentes não só fome, mas a desordem de tudo que nunca aprenderam a conter. E o vento… insiste. Se espreme entre frestas nas rochas de uma caverna escura e úmida, raspando em si mesmo para atravessar espaços que não foram feitos para ele existir. Se dobra, se fragmenta, se distorce — tentando alcançar espaços que não lhe pertencem e onde, no fundo, ele nunca fez questão de estar. O vento não tem corpo, mas sente e sangra. Sente cada avanço dos felinos como lâmina. Sente cada tremor do passarinho como um colapso inteiro. E sopra. Sopra mais forte do que deveria. Mais do que consegue. Mais do que aguenta. Porque, no fundo, acredita numa mentira silenciosa: que, se s...

Fazer as pazes

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Existe um sofrimento silencioso que quase ninguém vê. Ele vive dentro da cabeça de quem insiste em revisitar o próprio passado, como se fosse possível voltar no tempo e corrigir cada escolha feita. É o sofrimento de quem olha para a própria história e pensa: eu poderia ter sido mais. Então começa um tribunal interno. Sem defesa. Só acusação. Cada erro vira prova. Cada falha vira sentença. Cada arrependimento vira peso. A mente, quando cansada, pode ser cruel. Ela revisita decisões antigas com a lucidez que só veio anos depois. E em meio a este caos, nos esquecemos de algo fundamental: Todos nós tomamos decisões com o nível de consciência que tínhamos naquele momento. Não com o que sabemos hoje. Ninguém escolhe errado sabendo exatamente tudo o que vai acontecer. Só depois o tempo chega trazendo maturidade, compreensão e, às vezes, arrependimento. Mas o passado não pode ser reescrito. E quem se questiona demais quase sempre também se importa demais. Talvez ninguém esteja queb...

Reflexo da opressão

Assusta-me a crescente normalização de uma ignorância ideológica que se espalha silenciosa, mas ferozmente, na mente de muitos. Pessoas comuns, como quaisquer outras, mas que, ao se alinharem confortavelmente à direita de uma linha imaginária, passam a se acreditar moralmente superiores — como se a posição política lhes conferisse caráter. O problema não está em divergir, mas em negar. Negar que existe opressão, que há desigualdade, que nem todos partem do mesmo ponto. O verdadeiro risco começa quando essa negação ganha forma de discurso e se espalha como verdade. Dizer que não há opressor é uma forma sofisticada de perpetuar a opressão. É uma tentativa de apagar responsabilidades históricas, políticas e sociais. Quem afirma que a opressão não tem rosto, muitas vezes, o faz para evitar olhar no espelho. É assim que a opressão se preserva: camuflada, diluída em discursos sobre meritocracia, ordem e neutralidade. Ela se torna parte do cotidiano, até parecer normal. Mas, se a opressão não...

Maturidade Infantil

A infância que estão roubando Existe algo profundamente perturbador acontecendo diante dos nossos olhos — e, pior, muitos fingem não perceber. Quando crianças deixam de querer ser crianças, alguém está ensinando isso a elas. Não nasce do nada. Não é espontâneo. É um reflexo de um mundo que decidiu empurrar para a infância desejos, vaidades e comportamentos que ela ainda não tem maturidade para compreender. Crianças repetem o que veem. Imitam o que o mundo aplaude. Vestem o que lhes dizem ser bonito, agem como acreditam que devem agir para serem aceitas. No fundo, continuam sendo apenas crianças — com a ingenuidade, a curiosidade e a confiança próprias de quem ainda não entende a dimensão do mal que existe. Mas há quem entenda. Há quem observe. Há quem espere. Predadores não precisam de muito. Basta uma brecha. Um ambiente permissivo. Um silêncio coletivo que finja que nada está acontecendo. Eles se alimentam da ingenuidade, da fragilidade e da falsa sensação de maturidade que a socieda...

Inquietude cidadã

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Não é uma ditadura. Nem de longe! Pelo menos não dessas que aprendemos nos livros. As instituições estão lá. As eleições acontecem. A Constituição continua sendo citada. Mas algo mudou. O poder fala em igualdade. Discursa sobre justiça social. Condena privilégios históricos. E, enquanto fala, reajusta os próprios salários. Amplia benefícios. Preserva garantias que o cidadão comum jamais conhecerá. Não é ilegal. É desconfortável. Existe algo incoerente quando se combate o privilégio vivendo protegido por ele. Enquanto isso, o Judiciário — especialmente o Supremo Tribunal Federal — assume protagonismo crescente. Decide o que o Legislativo não decide. Ocupa o espaço que a política abandona. E quando poucos concentram decisões estruturais, a sensação não é de proteção. É de distância. Mas o que mais me preocupa não está nos prédios de Brasília. Está nas mesas de jantar. Famílias se rompem. Amigos se ofendem. Desconhecidos se odeiam. Pessoas brigam. Humilham. Se agridem. Algumas...

Órbitas que não retornam

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Há pessoas que simplesmente escolhem sair das nossas vidas. Não explicam. Não elaboram. Não sustentam o próprio gesto. Apenas saem. Fecham a porta com a naturalidade de quem troca de sala, como se sentimentos fossem móveis fáceis de substituir. Não se perguntam sobre o impacto, não dimensionam o silêncio que deixam, não calculam o que fica suspenso no ar. Partem. E, ironicamente, algum tempo depois questionam por que não fomos atrás. Por que não insistimos. Por que não lutamos. Como se a responsabilidade pela ruptura fosse de quem permaneceu. Mas há uma diferença fundamental entre abandonar e ficar. Quem sai toma uma decisão. Quem fica apenas respeita. Existe uma maturidade difícil — quase cirúrgica — em compreender que insistir onde alguém deliberadamente se ausentou não é amor, é invasão. Não é cuidado, é negação da realidade. O mundo está cheio de pessoas que confundem liberdade com indiferença. Que trocam vínculos por possibilidades imaginadas. Que enxergam ameaça onde ...

Por enquanto, o tempo

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Achávamos que o tempo esperava, mas era ele quem nos empurrava. Entre promessas feitas com pressa e silêncios que ficaram tarde demais. Vivemos como se houvesse sempre depois, como se o agora fosse ensaio e o amor tivesse garantia. Não tinha. Alguns momentos são insignificantes, outros eternos. Eternos o suficiente para deixar marcas que não aprendem a ir embora. Hoje eu sei: não foi tudo perdido, mas também não foi eterno. Foi real enquanto durou. E se a vida segue, não é por descuido, é porque continuar também é uma forma de amar — por enquanto.

Na contramão — ou em outra estrada?

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Fico observando as pessoas dizendo que são emocionadas, que querem intensidade. E isso me faz pensar que talvez eu esteja mesmo andando na contramão. Ou, quem sabe, em outra estrada. Porque o que busco na vida é serenidade. Clareza. Paz. Intensidade me soa como algo pesado demais. Urgente demais. Há um ruído grande em torno dessa palavra que, embora costumeiramente vendida como sinônimo de profundidade, na prática muitas vezes encobre ansiedade, carência e medo do silêncio. Intensidade, quando não vem acompanhada de clareza, vira urgência. E urgência cansa, cobra, sufoca. Já confundi intensidade com profundidade. Já achei que sentimento precisava doer para ser verdadeiro. Mas aprendi — muitas vezes à força — que isso não é amor: é ansiedade. Eu não quero relações que queimam rápido demais. Quero vínculos que respiram. Não quero jogos, nem testes emocionais, nem a sensação constante de estar devendo algo a alguém. Quero a tranquilidade de ser eu sem precisar me explicar o te...

Mais uma vez, Clarisse.

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Era péssima em sentir — e pior ainda em demonstrar. Isso nunca significou ausência de pensamento. Pelo contrário. Clarisse tinha muito a dizer, mas por insegurança, autopreservação e consciência da própria inconstância mental, aprendeu que o silêncio era, muitas vezes, a forma mais segura de existir. Seus sentimentos nunca foram mornos. Nada permanecia no meio-termo: ou sentia demais, ou não demonstrava absolutamente nada. E isso era assustador — até para ela. Clarisse sempre falou demais. Nem sempre o que se queria ouvir, mas o que ela acreditava ser necessário. Afinal, amar não é isso? Ainda assim, muitas vezes não foi compreendida. Com o tempo, aprendeu, nas próprias relações, que se jogar de cabeça — ou se entregar sem freio — raramente termina bem. As pessoas entram em nossas vidas cheias de promessas, mas saem sem pensar em quem deixam para trás. Também entendeu que suas palavras, ditas sem filtro e cheias de verdade, nem sempre eram acolhidas. E que nem todos estavam...

Canto do Encontro que Não Houve

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Antes do tempo aprender a nomear os gestos, antes que a pele inventasse a coragem do toque, houve lábios suspensos no intervalo do mundo, carregando o sabor intacto dos beijos que nunca aconteceram. Não era ausência. Era espera. Havia no ar um perfume sem frasco, um rastro invisível atravessando dias, uma memória sem origem que insistia em existir como se já tivesse sido vivida. E o corpo — esse cronista fiel do impossível — arrepiava-se não pelo que tocava, mas pelo que pressentia. Assim nasceu o desejo: não do encontro, mas da promessa. O desconhecido, então, ergueu seu trono. Sentou-se à mesa, ocupou o quarto, deitou-se nos pensamentos com a intimidade dos que nunca partiram. Como pode — perguntavam os dias — o que nunca esteve ser tão presente? Como pode o querer atravessar o nada e ainda assim permanecer inteiro? Seria fantasia, essa arquitetura frágil da mente que constrói abismos e os chama de ponte? Seria alucinação, um erro belo da consciência que confunde ausência...

Estado de Alerta

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Tristeza? Angústia? Preocupação? Nada disso é novidade. E, ainda assim, não fica mais fácil. O coração continua apertado, como se estivesse sempre alguns segundos atrasado em relação ao resto do corpo. A respiração vem curta, ofegante, mesmo quando nada está fisicamente errado. O sono perdeu o ritmo — quando vem, não descansa; quando vai embora, leva junto qualquer sensação de alívio. A mente não desacelera. Ela corre, calcula, simula cenários, antecipa tragédias, procura saídas que não existem. E no meio disso tudo, essa sensação estranha e contraditória de estar vazio e cheio ao mesmo tempo. Vazio de sentido. Cheio de pensamentos. A cabeça não se permite um minuto de descanso e processa mil opções para problemas que, no fundo, sabe que requerem mais sacrifícios do que se pode fazer agora. Volta sempre ao mesmo ponto. Revira as mesmas perguntas. E chama isso de pensar, viver, aguentar. E o coração responde batendo forte, como se estivesse tentando avisar de um perigo que n...

Eu, paradoxo.

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Sou, antes de tudo, o efeito contínuo de minhas próprias contradições. Habito uma mente dividida em compartimentos conscientes: alguns que faço questão de abrir, outros que mantenho selados não por medo, mas por prudência. Sou o resultado de inúmeras versões de mim mesmo e, ainda assim, estranho até para quem sou hoje. Reconheço meus traços, mas já não confio inteiramente na permanência de nenhum deles. Carrego em mim aquilo que fui, aquilo que abandonei, e aquilo que ainda não tive coragem suficiente para me tornar. Sou feito de forças opostas que não se anulam: ímpetos e recuos, lucidez e autoengano, ímpares desejos de ordem e de caos. Não sou estável. Sou processo. Em cada pessoa que encontro, manifesto um fragmento distinto de mim. Em cada escolha, sacrifico versões inteiras que jamais voltarão a existir. Sou memória para alguns, hipótese para outros, e para mim mesmo, uma pergunta em construção. Posso ser generoso e cruel na mesma semana. Tolerante ao discurso e rígido...

Espiritualidade Laica

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Bem… hoje, no que acho ser meu primeiro texto do ano, quis falar, mais uma vez, da minha espiritualidade. Mas já vou avisando: Texto longo e complexo. Eu já segui muitas religiões. Caminhei por diferentes tradições, ouvi diferentes discursos, tentei diferentes caminhos. Em nenhuma delas consegui, de fato, me encontrar. Não por falta de fé. Mas por excesso de perguntas. A ideia de que um homem possa falar em nome de Deus, possuir mais autoridade espiritual que os demais e definir, por si, o certo e o errado nunca me deixou confortável. Nunca consegui aceitar que a consciência humana deva se submeter sem questionamento à voz de uma instituição, de um púlpito ou de uma hierarquia. Isso não me afastou da espiritualidade. Me afastou apenas dos dogmas. Sempre respeitei profundamente quem encontra na religião um caminho de equilíbrio, força e transformação. Mas sempre fui provocativo também. Mas acredito que a fé, quando vivida com amor e ética, é uma das expressões mais bonitas d...

Coisas que tenho aprendido

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Coisas que tenho aprendido (e que todos deveriam aprender — ou não) Em algum momento da vida, quase todo mundo precisa encarar uma verdade incômoda: não somos tão especiais quanto aprendemos a acreditar. Dói no ego. Mas alivia a alma. E isso é só o começo. Aceitar cedo que ninguém pensa em você tanto quanto você imagina muda muita coisa. As pessoas estão ocupadas demais tentando sobreviver às próprias dores. Outra verdade difícil: boa parte do que você chama de opinião não foi construída. Foi absorvida. Família. Grupo. Cultura. Medo de discordar. Vontade de pertencer. Questionar isso não te enfraquece. Te acorda. Gostamos de nos ver como racionais. Não somos. Primeiro sentimos. Depois decidimos. Só então explicamos. A razão entra mais para justificar do que para guiar. Isso não é falha. É humano. Muita gente reclama não porque não sabe o que fazer, mas porque agir custa caro emocionalmente. Reclamar alivia. Agir transforma. A queixa constante é um descanso confortável antes...

Por amar...

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Às vezes, o coração parece abafado — bate forte, descompassado — justamente quando precisamos falar com mais firmeza a quem mais importa. Isso acontece porque nunca há, em nós, a intenção de ferir; há apenas o cuidado de não permitir que algo se perca. Amar, no entanto, também é ter coragem. Coragem de sustentar a firmeza quando ela é necessária. Coragem de enfrentar um coração agitado como o mar e uma mente em turbilhão para fazer o que precisa ser feito. É pausar depois, respeitar o próprio tempo, reconhecer a energia que se esvaiu e o cansaço que a alma passa a carregar. E seguir adiante com a certeza de que quem ama cuida — e cuidar, muitas vezes, é agir mesmo quando isso provoca dor ou desconforto. Amar é educar. E não existe educação sem alguns arranhões, sem marcas, sem atravessar pequenos desconfortos que também ensinam.

Poder demais dá ruim

Acordei com a notícia do ataque dos EUA contra a Venezuela e não poderia deixar de refletir e escrever sobre isso, principalmente por que me assustou e ao entrar nas redes sociais, lendo os comentários, fiquei em Pânico. O Brasil tem comemorado situações que não me parecem normais. A esquerda é a direita estão tão doentes que se tornam cada vez mais cegas e extremas. Quando pouca gente concentra poder demais, o risco é real — aqui, lá fora, em qualquer lugar. E quem acha bonito hoje pode ser a próxima vítima amanhã. No Brasil, é cada vez mais claro que o Judiciário está passando do ponto. Ministro que investiga, acusa, julga e ainda interfere nos outros poderes. Tudo sempre com a mesma desculpa (justificativa): “é pra defender a democracia”. Mas democracia que depende de poder absoluto já não é democracia. O pior é que já sentiram o gosto. E quem sente o gosto do poder sem freio dificilmente larga. A caçada vai andando, o limite vai sumindo, e a regra vira conveniência. Hoje é um alvo ...