Mais uma vez, Clarisse.
Era péssima em sentir — e pior ainda em demonstrar.
Isso nunca significou ausência de pensamento. Pelo contrário.
Clarisse tinha muito a dizer, mas por insegurança, autopreservação e consciência da própria inconstância mental, aprendeu que o silêncio era, muitas vezes, a forma mais segura de existir.
Seus sentimentos nunca foram mornos.
Nada permanecia no meio-termo: ou sentia demais, ou não demonstrava absolutamente nada.
E isso era assustador — até para ela.
Clarisse sempre falou demais.
Nem sempre o que se queria ouvir, mas o que ela acreditava ser necessário. Afinal, amar não é isso?
Ainda assim, muitas vezes não foi compreendida.
Com o tempo, aprendeu, nas próprias relações, que se jogar de cabeça — ou se entregar sem freio — raramente termina bem.
As pessoas entram em nossas vidas cheias de promessas, mas saem sem pensar em quem deixam para trás.
Também entendeu que suas palavras, ditas sem filtro e cheias de verdade, nem sempre eram acolhidas.
E que nem todos estavam dispostos a sustentar aquilo que pediam para ouvir.
Foi então que passou a conter não só a fala, mas o afeto.
E, para proteger quem a cercava — e a si mesma — Clarisse aprendeu a não demonstrar.
O problema é que esse aprendizado foi uma via de mão única.
O que começou como defesa virou hábito.
O hábito virou bloqueio.
Para quem olha de fora, Clarisse parece seca.
Sem sentimentos, sem interesse, sem grandes preocupações.
Mas só ela sabe o que sente.
E o quanto é difícil sustentar, sozinha, tudo aquilo que não se permite mostrar.
Ainda assim, Clarisse segue.
Sempre em frente.
Tentando mais.
Cresce na dor, aprende no silêncio e muda por decisão própria.
Não para caber no mundo.
Mas para não se perder de si.
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