Passarinhos
Há um passarinho pequeno demais para entender por que o céu, às vezes, desaba de dentro para fora. Ele abre as asas sem saber que o vento que o sustenta… também está se partindo. Ao redor, felinos. Não escondidos — vivos, pulsando, respirando perto demais. Olhos que brilham como promessa e ameaça no mesmo instante. Carregam nos dentes não só fome, mas a desordem de tudo que nunca aprenderam a conter. E o vento… insiste. Se espreme entre frestas nas rochas de uma caverna escura e úmida, raspando em si mesmo para atravessar espaços que não foram feitos para ele existir. Se dobra, se fragmenta, se distorce — tentando alcançar espaços que não lhe pertencem e onde, no fundo, ele nunca fez questão de estar. O vento não tem corpo, mas sente e sangra. Sente cada avanço dos felinos como lâmina. Sente cada tremor do passarinho como um colapso inteiro. E sopra. Sopra mais forte do que deveria. Mais do que consegue. Mais do que aguenta. Porque, no fundo, acredita numa mentira silenciosa: que, se s...