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Alçapão de Vozes Velhas

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Há quem insista em guardar rostos no bolso do casaco, mesmo quando a estação mudou faz tempo. Nomes que dormem em silêncio, mas respiram — cúmplices de um passado que se finge esquecido, pendurados na memória como retratos tortos na parede. Em noites caladas, ouve-se o sussurro do que não morreu direito. Conversas mofadas, números que não deviam mais existir, ficam ali, latentes como brasas cobertas de pó. Um estoque de beijos que nunca se gastam, uma despensa de promessas vencidas. Há quem precise desse museu ambulante, feito talismã de carência, álibi para o tédio, porto de fuga para dias em que a coragem some. Portas se mantêm entreabertas, só pra alimentar o sopro de vaidade — um aceno de que a fila nunca acaba, de que tudo pode recomeçar se a rotina pesar. Enquanto isso, alguém varre os cantos, espera a casa ficar limpa, aposta em silêncio que a porta feche. Mas quem cultiva gavetas abarrotadas não tem espaço pra futuro. Quem amontoa vozes velhas não sabe escutar prese...

Sem filtro

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Tem dias que são muito difíceis, principalmente para aqueles cuja balança emocional nunca parece estar calibrada. Dias em que se deseja a dor da solidão, e não a paz da solitude. Dias em que se respira fundo, mas os pulmões nunca parecem se preencher. Dias em que a bateria está esgotada, mesmo tendo sido recarregada. Dias sem explicação lógica. Aparentemente, não há nada de errado. Mas tudo está fora do lugar. Dias em que se deseja um colo, mas tudo o que se consegue é deitar em posição de proteção, com a luz apagada e nenhum som além da própria respiração ofegante. Esses são, mais frequentemente do que se gostaria, os dias das pessoas que sentem demais, que não possuem filtros emocionais e que, por questão de sobrevivência, aprisionam a maior parte dos próprios fantasmas dentro do peito, tornando-se casas mal-assombradas por si mesmas.

Crise

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Há dias em que acordamos com o coração descompassado e a cabeça fora do lugar. Ansiedade. Pensamentos embaralhados. Uma tristeza sem explicação. Procura-se um colo. Um abrigo. Um refúgio. Um carinho. Fases. Crises. Frescura. "Inexplicável." O tempo passa. Respiração ofegante. Olhos fechados. Corpo encolhido, em posição fetal. Desprotegido. Inconsolável. A busca por uma explicação. Por algum entendimento. Nada. Entender ajuda. Mas perseguir uma razão, às vezes, é mais uma forma de desmoronar. Então resta dar tempo ao tempo. Fazer do momento, presença. Da sensação, companhia. Da fragilidade, morada. Até que, sem aviso, o peito se aquieta. Os sentimentos se desfazem como névoa. E seguimos. Ainda em passos cautelosos. Ainda em ritmo incerto. Porque a crise raramente diz adeus. Ela apenas sussurra: até breve.

A brisa também passa

Acordo com o coração em chamas, os olhos banhados de vertigem, como quem renasce antes mesmo do sol. A esperança, tão frágil quanto teimosa, ainda escolhe morar em mim. Recolho os destroços do que fui: ofensas, perdas, traições. Já não sangram. Apenas contam histórias. A dor cumpriu seu ofício em silêncio e partiu deixando cicatrizes que aprenderam a florescer. Hoje, o futuro já não veste o luto dos meus antigos medos. Abre-se diante de mim como um horizonte que respira. O mesmo céu que um dia me pesou sobre os ombros agora me convida a seguir. Sei que a paz é uma ave de pouso breve. Por isso, não tento aprisioná-la. A impermanência torna sagrado o instante, e toda brisa leve passa a ter gosto de eternidade.