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Reconhecimento

Acordei com uma frase na cabeça: "Às vezes o reconhecimento não virá de onde achamos que deveria, e isso nos causará frustração. Ele virá de onde a gente menos espera, e isso nos causará surpresa." Isso é algo tão perfeitamente humano! Toca numa tensão difícil: reconhecimento e expectativa. Buscar reconhecimento não tem nada de pequeno. É quase inevitável. A gente quer ser visto — pelo esforço, pela intenção, pelo cuidado, pela presença. Principalmente quando aquilo exigiu algo de nós. O que costuma doer não é só a falta de reconhecimento. Muitas vezes é a quebra da narrativa que criamos: “essa pessoa vai perceber”, “esse lugar vai valorizar”, “depois de tudo isso, agora vai”. Quando não acontece, parece que houve injustiça. Só que reconhecimento e valor não obedecem a uma relação direta. Tem gente incapaz de reconhecer porque está ocupada demais consigo mesma. Tem gente que ama e não sabe demonstrar. Tem ambientes que consomem esforço como se fosse o mínimo esperado. E tem p...

Onde posso existir

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Eu digo muito, transbordo em palavras, mas há silêncios meus que só o papel suporta. Porque ele não interrompe, não franze a testa, não devolve conselhos quando eu só preciso existir. Há confissões que não cabem na voz, elas tremem antes de sair, se escondem na garganta, mas deslizam fáceis pela ponta da caneta. No papel, não há vergonha que ecoe, não há desejo proibido demais, não há julgamento esperando no fim da frase. Só há espaço. E nesse espaço, eu deixo pedaços de mim — os que ninguém veria, os que talvez ninguém entenderia. E, aos poucos, o peito desaperta, como se cada palavra escrita levasse embora um pouco do peso. Se soubessem… o quanto escrever é respirar por dentro, o quanto um caderno pode ser abrigo, o quanto uma folha pode ser colo. Talvez carregassem canetas como quem carrega coragem. Porque há coisas, mesmo com o mundo inteiro ao redor, que só o papel sabe guardar.

Quando a morte vira resposta

Vi uma reportagem em que um garoto de 13 anos foi assassinado. No vídeo que acompanhava a matéria, ele aparecia roubando uma mulher. Ela caía no chão enquanto ele fugia com a bolsa. A cena é dura. E não foi um caso isolado: segundo a própria reportagem, ele já acumulava mais de vinte ocorrências semelhantes. Isso precisa ser dito sem rodeio. Houve vítimas. Muitas. Gente que foi assaltada, que sentiu medo, que foi ferida física ou emocionalmente. Ignorar isso seria desonesto. Mas existe outra camada que não pode ser apagada. Estamos falando de um garoto de 13 anos com mais de vinte passagens. Isso não surge de repente. Isso é um processo. Um acúmulo de falhas que começa muito antes do primeiro roubo: ausência de estrutura familiar, falta de acompanhamento, escola que não conseguiu reter, políticas públicas que não alcançaram, um ambiente onde o crime vira alternativa — às vezes a única visível. Em algum momento, esse garoto deixou de ser visto como alguém a ser recuperado e passou a ser...

Eles não mudaram tanto.

Outro dia, sentado em uma pizzaria, observei alguns adolescentes. Nada muito diferente do que já vi dezenas de vezes. Um deles levantou, boné torto, postura de quem não pede licença pra existir, saiu pra fumar. A namorada, delicada, bem arrumada — quase um contraste vivo. Na mesma mesa, outros casais. Alguns mais quietos, mais contidos, com aquele ar de “certinhos”. E ali, sem perceber, eu voltei no tempo. Porque era assim antes também. Sempre foi. O grupo nunca foi homogêneo. Sempre houve o deslocado, o intenso, o discreto, o que tenta impressionar, o que observa em silêncio. A juventude muda de estética, muda de linguagem… mas não muda tanto na essência. O que mudou não foi o adolescente. Foi o entorno. Hoje, o professor se cobra para inovar o tempo todo. Quer engajar, quer ser diferente, quer competir com um mundo que grita mais alto que qualquer sala de aula. Mas, no meio disso, algo se perdeu no caminho. O professor vira um “animador de plateia”. O conteúdo perde densidade. A auto...