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Na contramão — ou em outra estrada?

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Fico observando as pessoas dizendo que são emocionadas, que querem intensidade. E isso me faz pensar que talvez eu esteja mesmo andando na contramão. Ou, quem sabe, em outra estrada. Porque o que busco na vida é serenidade. Clareza. Paz. Intensidade me soa como algo pesado demais. Urgente demais. Há um ruído grande em torno dessa palavra que, embora costumeiramente vendida como sinônimo de profundidade, na prática muitas vezes encobre ansiedade, carência e medo do silêncio. Intensidade, quando não vem acompanhada de clareza, vira urgência. E urgência cansa, cobra, sufoca. Já confundi intensidade com profundidade. Já achei que sentimento precisava doer para ser verdadeiro. Mas aprendi — muitas vezes à força — que isso não é amor: é ansiedade. Eu não quero relações que queimam rápido demais. Quero vínculos que respiram. Não quero jogos, nem testes emocionais, nem a sensação constante de estar devendo algo a alguém. Quero a tranquilidade de ser eu sem precisar me explicar o te...

Mais uma vez, Clarisse.

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Era péssima em sentir — e pior ainda em demonstrar. Isso nunca significou ausência de pensamento. Pelo contrário. Clarisse tinha muito a dizer, mas por insegurança, autopreservação e consciência da própria inconstância mental, aprendeu que o silêncio era, muitas vezes, a forma mais segura de existir. Seus sentimentos nunca foram mornos. Nada permanecia no meio-termo: ou sentia demais, ou não demonstrava absolutamente nada. E isso era assustador — até para ela. Clarisse sempre falou demais. Nem sempre o que se queria ouvir, mas o que ela acreditava ser necessário. Afinal, amar não é isso? Ainda assim, muitas vezes não foi compreendida. Com o tempo, aprendeu, nas próprias relações, que se jogar de cabeça — ou se entregar sem freio — raramente termina bem. As pessoas entram em nossas vidas cheias de promessas, mas saem sem pensar em quem deixam para trás. Também entendeu que suas palavras, ditas sem filtro e cheias de verdade, nem sempre eram acolhidas. E que nem todos estavam...

Canto do Encontro que Não Houve

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Antes do tempo aprender a nomear os gestos, antes que a pele inventasse a coragem do toque, houve lábios suspensos no intervalo do mundo, carregando o sabor intacto dos beijos que nunca aconteceram. Não era ausência. Era espera. Havia no ar um perfume sem frasco, um rastro invisível atravessando dias, uma memória sem origem que insistia em existir como se já tivesse sido vivida. E o corpo — esse cronista fiel do impossível — arrepiava-se não pelo que tocava, mas pelo que pressentia. Assim nasceu o desejo: não do encontro, mas da promessa. O desconhecido, então, ergueu seu trono. Sentou-se à mesa, ocupou o quarto, deitou-se nos pensamentos com a intimidade dos que nunca partiram. Como pode — perguntavam os dias — o que nunca esteve ser tão presente? Como pode o querer atravessar o nada e ainda assim permanecer inteiro? Seria fantasia, essa arquitetura frágil da mente que constrói abismos e os chama de ponte? Seria alucinação, um erro belo da consciência que confunde ausência...

Estado de Alerta

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Tristeza? Angústia? Preocupação? Nada disso é novidade. E, ainda assim, não fica mais fácil. O coração continua apertado, como se estivesse sempre alguns segundos atrasado em relação ao resto do corpo. A respiração vem curta, ofegante, mesmo quando nada está fisicamente errado. O sono perdeu o ritmo — quando vem, não descansa; quando vai embora, leva junto qualquer sensação de alívio. A mente não desacelera. Ela corre, calcula, simula cenários, antecipa tragédias, procura saídas que não existem. E no meio disso tudo, essa sensação estranha e contraditória de estar vazio e cheio ao mesmo tempo. Vazio de sentido. Cheio de pensamentos. A cabeça não se permite um minuto de descanso e processa mil opções para problemas que, no fundo, sabe que requerem mais sacrifícios do que se pode fazer agora. Volta sempre ao mesmo ponto. Revira as mesmas perguntas. E chama isso de pensar, viver, aguentar. E o coração responde batendo forte, como se estivesse tentando avisar de um perigo que n...