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Por enquanto, o tempo

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Achávamos que o tempo esperava, mas era ele quem nos empurrava. Entre promessas feitas com pressa e silêncios que ficaram tarde demais. Vivemos como se houvesse sempre depois, como se o agora fosse ensaio e o amor tivesse garantia. Não tinha. Alguns momentos são insignificantes, outros eternos. Eternos o suficiente para deixar marcas que não aprendem a ir embora. Hoje eu sei: não foi tudo perdido, mas também não foi eterno. Foi real enquanto durou. E se a vida segue, não é por descuido, é porque continuar também é uma forma de amar — por enquanto.

Na contramão — ou em outra estrada?

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Fico observando as pessoas dizendo que são emocionadas, que querem intensidade. E isso me faz pensar que talvez eu esteja mesmo andando na contramão. Ou, quem sabe, em outra estrada. Porque o que busco na vida é serenidade. Clareza. Paz. Intensidade me soa como algo pesado demais. Urgente demais. Há um ruído grande em torno dessa palavra que, embora costumeiramente vendida como sinônimo de profundidade, na prática muitas vezes encobre ansiedade, carência e medo do silêncio. Intensidade, quando não vem acompanhada de clareza, vira urgência. E urgência cansa, cobra, sufoca. Já confundi intensidade com profundidade. Já achei que sentimento precisava doer para ser verdadeiro. Mas aprendi — muitas vezes à força — que isso não é amor: é ansiedade. Eu não quero relações que queimam rápido demais. Quero vínculos que respiram. Não quero jogos, nem testes emocionais, nem a sensação constante de estar devendo algo a alguém. Quero a tranquilidade de ser eu sem precisar me explicar o te...

Mais uma vez, Clarisse.

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Era péssima em sentir — e pior ainda em demonstrar. Isso nunca significou ausência de pensamento. Pelo contrário. Clarisse tinha muito a dizer, mas por insegurança, autopreservação e consciência da própria inconstância mental, aprendeu que o silêncio era, muitas vezes, a forma mais segura de existir. Seus sentimentos nunca foram mornos. Nada permanecia no meio-termo: ou sentia demais, ou não demonstrava absolutamente nada. E isso era assustador — até para ela. Clarisse sempre falou demais. Nem sempre o que se queria ouvir, mas o que ela acreditava ser necessário. Afinal, amar não é isso? Ainda assim, muitas vezes não foi compreendida. Com o tempo, aprendeu, nas próprias relações, que se jogar de cabeça — ou se entregar sem freio — raramente termina bem. As pessoas entram em nossas vidas cheias de promessas, mas saem sem pensar em quem deixam para trás. Também entendeu que suas palavras, ditas sem filtro e cheias de verdade, nem sempre eram acolhidas. E que nem todos estavam...

Canto do Encontro que Não Houve

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Antes do tempo aprender a nomear os gestos, antes que a pele inventasse a coragem do toque, houve lábios suspensos no intervalo do mundo, carregando o sabor intacto dos beijos que nunca aconteceram. Não era ausência. Era espera. Havia no ar um perfume sem frasco, um rastro invisível atravessando dias, uma memória sem origem que insistia em existir como se já tivesse sido vivida. E o corpo — esse cronista fiel do impossível — arrepiava-se não pelo que tocava, mas pelo que pressentia. Assim nasceu o desejo: não do encontro, mas da promessa. O desconhecido, então, ergueu seu trono. Sentou-se à mesa, ocupou o quarto, deitou-se nos pensamentos com a intimidade dos que nunca partiram. Como pode — perguntavam os dias — o que nunca esteve ser tão presente? Como pode o querer atravessar o nada e ainda assim permanecer inteiro? Seria fantasia, essa arquitetura frágil da mente que constrói abismos e os chama de ponte? Seria alucinação, um erro belo da consciência que confunde ausência...