Inquietude cidadã
Não é uma ditadura. Nem de longe! Pelo menos não dessas que aprendemos nos livros. As instituições estão lá. As eleições acontecem. A Constituição continua sendo citada. Mas algo mudou. O poder fala em igualdade. Discursa sobre justiça social. Condena privilégios históricos. E, enquanto fala, reajusta os próprios salários. Amplia benefícios. Preserva garantias que o cidadão comum jamais conhecerá. Não é ilegal. É desconfortável. Existe algo incoerente quando se combate o privilégio vivendo protegido por ele. Enquanto isso, o Judiciário — especialmente o Supremo Tribunal Federal — assume protagonismo crescente. Decide o que o Legislativo não decide. Ocupa o espaço que a política abandona. E quando poucos concentram decisões estruturais, a sensação não é de proteção. É de distância. Mas o que mais me preocupa não está nos prédios de Brasília. Está nas mesas de jantar. Famílias se rompem. Amigos se ofendem. Desconhecidos se odeiam. Pessoas brigam. Humilham. Se agridem. Algumas...