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Órbitas que não retornam

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Há pessoas que simplesmente escolhem sair das nossas vidas. Não explicam. Não elaboram. Não sustentam o próprio gesto. Apenas saem. Fecham a porta com a naturalidade de quem troca de sala, como se sentimentos fossem móveis fáceis de substituir. Não se perguntam sobre o impacto, não dimensionam o silêncio que deixam, não calculam o que fica suspenso no ar. Partem. E, ironicamente, algum tempo depois questionam por que não fomos atrás. Por que não insistimos. Por que não lutamos. Como se a responsabilidade pela ruptura fosse de quem permaneceu. Mas há uma diferença fundamental entre abandonar e ficar. Quem sai toma uma decisão. Quem fica apenas respeita. Existe uma maturidade difícil — quase cirúrgica — em compreender que insistir onde alguém deliberadamente se ausentou não é amor, é invasão. Não é cuidado, é negação da realidade. O mundo está cheio de pessoas que confundem liberdade com indiferença. Que trocam vínculos por possibilidades imaginadas. Que enxergam ameaça onde ...

Por enquanto, o tempo

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Achávamos que o tempo esperava, mas era ele quem nos empurrava. Entre promessas feitas com pressa e silêncios que ficaram tarde demais. Vivemos como se houvesse sempre depois, como se o agora fosse ensaio e o amor tivesse garantia. Não tinha. Alguns momentos são insignificantes, outros eternos. Eternos o suficiente para deixar marcas que não aprendem a ir embora. Hoje eu sei: não foi tudo perdido, mas também não foi eterno. Foi real enquanto durou. E se a vida segue, não é por descuido, é porque continuar também é uma forma de amar — por enquanto.

Na contramão — ou em outra estrada?

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Fico observando as pessoas dizendo que são emocionadas, que querem intensidade. E isso me faz pensar que talvez eu esteja mesmo andando na contramão. Ou, quem sabe, em outra estrada. Porque o que busco na vida é serenidade. Clareza. Paz. Intensidade me soa como algo pesado demais. Urgente demais. Há um ruído grande em torno dessa palavra que, embora costumeiramente vendida como sinônimo de profundidade, na prática muitas vezes encobre ansiedade, carência e medo do silêncio. Intensidade, quando não vem acompanhada de clareza, vira urgência. E urgência cansa, cobra, sufoca. Já confundi intensidade com profundidade. Já achei que sentimento precisava doer para ser verdadeiro. Mas aprendi — muitas vezes à força — que isso não é amor: é ansiedade. Eu não quero relações que queimam rápido demais. Quero vínculos que respiram. Não quero jogos, nem testes emocionais, nem a sensação constante de estar devendo algo a alguém. Quero a tranquilidade de ser eu sem precisar me explicar o te...

Mais uma vez, Clarisse.

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Era péssima em sentir — e pior ainda em demonstrar. Isso nunca significou ausência de pensamento. Pelo contrário. Clarisse tinha muito a dizer, mas por insegurança, autopreservação e consciência da própria inconstância mental, aprendeu que o silêncio era, muitas vezes, a forma mais segura de existir. Seus sentimentos nunca foram mornos. Nada permanecia no meio-termo: ou sentia demais, ou não demonstrava absolutamente nada. E isso era assustador — até para ela. Clarisse sempre falou demais. Nem sempre o que se queria ouvir, mas o que ela acreditava ser necessário. Afinal, amar não é isso? Ainda assim, muitas vezes não foi compreendida. Com o tempo, aprendeu, nas próprias relações, que se jogar de cabeça — ou se entregar sem freio — raramente termina bem. As pessoas entram em nossas vidas cheias de promessas, mas saem sem pensar em quem deixam para trás. Também entendeu que suas palavras, ditas sem filtro e cheias de verdade, nem sempre eram acolhidas. E que nem todos estavam...