Onde posso existir
Eu digo muito, transbordo em palavras, mas há silêncios meus que só o papel suporta. Porque ele não interrompe, não franze a testa, não devolve conselhos quando eu só preciso existir. Há confissões que não cabem na voz, elas tremem antes de sair, se escondem na garganta, mas deslizam fáceis pela ponta da caneta. No papel, não há vergonha que ecoe, não há desejo proibido demais, não há julgamento esperando no fim da frase. Só há espaço. E nesse espaço, eu deixo pedaços de mim — os que ninguém veria, os que talvez ninguém entenderia. E, aos poucos, o peito desaperta, como se cada palavra escrita levasse embora um pouco do peso. Se soubessem… o quanto escrever é respirar por dentro, o quanto um caderno pode ser abrigo, o quanto uma folha pode ser colo. Talvez carregassem canetas como quem carrega coragem. Porque há coisas, mesmo com o mundo inteiro ao redor, que só o papel sabe guardar.