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Fazer as pazes

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Existe um sofrimento silencioso que quase ninguém vê. Ele vive dentro da cabeça de quem insiste em revisitar o próprio passado, como se fosse possível voltar no tempo e corrigir cada escolha feita. É o sofrimento de quem olha para a própria história e pensa: eu poderia ter sido mais. Então começa um tribunal interno. Sem defesa. Só acusação. Cada erro vira prova. Cada falha vira sentença. Cada arrependimento vira peso. A mente, quando cansada, pode ser cruel. Ela revisita decisões antigas com a lucidez que só veio anos depois. E em meio a este caos, nos esquecemos de algo fundamental: Todos nós tomamos decisões com o nível de consciência que tínhamos naquele momento. Não com o que sabemos hoje. Ninguém escolhe errado sabendo exatamente tudo o que vai acontecer. Só depois o tempo chega trazendo maturidade, compreensão e, às vezes, arrependimento. Mas o passado não pode ser reescrito. E quem se questiona demais quase sempre também se importa demais. Talvez ninguém esteja queb...

Reflexo da opressão

Assusta-me a crescente normalização de uma ignorância ideológica que se espalha silenciosa, mas ferozmente, na mente de muitos. Pessoas comuns, como quaisquer outras, mas que, ao se alinharem confortavelmente à direita de uma linha imaginária, passam a se acreditar moralmente superiores — como se a posição política lhes conferisse caráter. O problema não está em divergir, mas em negar. Negar que existe opressão, que há desigualdade, que nem todos partem do mesmo ponto. O verdadeiro risco começa quando essa negação ganha forma de discurso e se espalha como verdade. Dizer que não há opressor é uma forma sofisticada de perpetuar a opressão. É uma tentativa de apagar responsabilidades históricas, políticas e sociais. Quem afirma que a opressão não tem rosto, muitas vezes, o faz para evitar olhar no espelho. É assim que a opressão se preserva: camuflada, diluída em discursos sobre meritocracia, ordem e neutralidade. Ela se torna parte do cotidiano, até parecer normal. Mas, se a opressão não...

Maturidade Infantil

A infância que estão roubando Existe algo profundamente perturbador acontecendo diante dos nossos olhos — e, pior, muitos fingem não perceber. Quando crianças deixam de querer ser crianças, alguém está ensinando isso a elas. Não nasce do nada. Não é espontâneo. É um reflexo de um mundo que decidiu empurrar para a infância desejos, vaidades e comportamentos que ela ainda não tem maturidade para compreender. Crianças repetem o que veem. Imitam o que o mundo aplaude. Vestem o que lhes dizem ser bonito, agem como acreditam que devem agir para serem aceitas. No fundo, continuam sendo apenas crianças — com a ingenuidade, a curiosidade e a confiança próprias de quem ainda não entende a dimensão do mal que existe. Mas há quem entenda. Há quem observe. Há quem espere. Predadores não precisam de muito. Basta uma brecha. Um ambiente permissivo. Um silêncio coletivo que finja que nada está acontecendo. Eles se alimentam da ingenuidade, da fragilidade e da falsa sensação de maturidade que a socieda...

Inquietude cidadã

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Não é uma ditadura. Nem de longe! Pelo menos não dessas que aprendemos nos livros. As instituições estão lá. As eleições acontecem. A Constituição continua sendo citada. Mas algo mudou. O poder fala em igualdade. Discursa sobre justiça social. Condena privilégios históricos. E, enquanto fala, reajusta os próprios salários. Amplia benefícios. Preserva garantias que o cidadão comum jamais conhecerá. Não é ilegal. É desconfortável. Existe algo incoerente quando se combate o privilégio vivendo protegido por ele. Enquanto isso, o Judiciário — especialmente o Supremo Tribunal Federal — assume protagonismo crescente. Decide o que o Legislativo não decide. Ocupa o espaço que a política abandona. E quando poucos concentram decisões estruturais, a sensação não é de proteção. É de distância. Mas o que mais me preocupa não está nos prédios de Brasília. Está nas mesas de jantar. Famílias se rompem. Amigos se ofendem. Desconhecidos se odeiam. Pessoas brigam. Humilham. Se agridem. Algumas...