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Fora o eixo

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Hoje acordei agitado, mas sem vontade de sair da cama. É uma combinação estranha: o corpo cansado, a mente acelerada e, entre os dois, uma vontade quase silenciosa de permanecer onde estou. Lutei contra esse primeiro impulso porque sei que, quando cedo a ele, corro o risco de permitir que um sentimento momentâneo ganhe uma força que não deveria ter. Então me levantei. Arrastado, mas me levantei. Iniciei meu ritual matinal. Preparei o café, tomei banho, sentei-me à mesa em silêncio e tomei meu café, mas desta vez no modo automático, sem dar a ele a devida atenção. Escovei os dentes, passei protetor solar. Fiz aquilo que faço praticamente todos os dias. Talvez seja justamente por isso que esses pequenos rituais sejam importantes: quando minha cabeça não está funcionando direito, não preciso pensar muito para saber o próximo passo. Mas hoje até isso pareceu mais difícil. Cada alarme que tocava me lembrava de que meu tempo, no refúgio da minha casa, estava acabando. Eu precisava sair. Prec...

Alçapão de Vozes Velhas

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Há quem insista em guardar rostos no bolso do casaco, mesmo quando a estação mudou faz tempo. Nomes que dormem em silêncio, mas respiram — cúmplices de um passado que se finge esquecido, pendurados na memória como retratos tortos na parede. Em noites caladas, ouve-se o sussurro do que não morreu direito. Conversas mofadas, números que não deviam mais existir, ficam ali, latentes como brasas cobertas de pó. Um estoque de beijos que nunca se gastam, uma despensa de promessas vencidas. Há quem precise desse museu ambulante, feito talismã de carência, álibi para o tédio, porto de fuga para dias em que a coragem some. Portas se mantêm entreabertas, só pra alimentar o sopro de vaidade — um aceno de que a fila nunca acaba, de que tudo pode recomeçar se a rotina pesar. Enquanto isso, alguém varre os cantos, espera a casa ficar limpa, aposta em silêncio que a porta feche. Mas quem cultiva gavetas abarrotadas não tem espaço pra futuro. Quem amontoa vozes velhas não sabe escutar prese...

Sem filtro

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Tem dias que são muito difíceis, principalmente para aqueles cuja balança emocional nunca parece estar calibrada. Dias em que se deseja a dor da solidão, e não a paz da solitude. Dias em que se respira fundo, mas os pulmões nunca parecem se preencher. Dias em que a bateria está esgotada, mesmo tendo sido recarregada. Dias sem explicação lógica. Aparentemente, não há nada de errado. Mas tudo está fora do lugar. Dias em que se deseja um colo, mas tudo o que se consegue é deitar em posição de proteção, com a luz apagada e nenhum som além da própria respiração ofegante. Esses são, mais frequentemente do que se gostaria, os dias das pessoas que sentem demais, que não possuem filtros emocionais e que, por questão de sobrevivência, aprisionam a maior parte dos próprios fantasmas dentro do peito, tornando-se casas mal-assombradas por si mesmas.

Crise

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Há dias em que acordamos com o coração descompassado e a cabeça fora do lugar. Ansiedade. Pensamentos embaralhados. Uma tristeza sem explicação. Procura-se um colo. Um abrigo. Um refúgio. Um carinho. Fases. Crises. Frescura. "Inexplicável." O tempo passa. Respiração ofegante. Olhos fechados. Corpo encolhido, em posição fetal. Desprotegido. Inconsolável. A busca por uma explicação. Por algum entendimento. Nada. Entender ajuda. Mas perseguir uma razão, às vezes, é mais uma forma de desmoronar. Então resta dar tempo ao tempo. Fazer do momento, presença. Da sensação, companhia. Da fragilidade, morada. Até que, sem aviso, o peito se aquieta. Os sentimentos se desfazem como névoa. E seguimos. Ainda em passos cautelosos. Ainda em ritmo incerto. Porque a crise raramente diz adeus. Ela apenas sussurra: até breve.