Inquietude cidadã
Não é uma ditadura. Nem de longe!
Pelo menos não dessas que aprendemos nos livros.
As instituições estão lá.
As eleições acontecem.
A Constituição continua sendo citada.
Mas algo mudou.
O poder fala em igualdade.
Discursa sobre justiça social.
Condena privilégios históricos.
E, enquanto fala, reajusta os próprios salários. Amplia benefícios.
Preserva garantias que o cidadão comum jamais conhecerá.
Não é ilegal.
É desconfortável.
Existe algo incoerente quando se combate o privilégio vivendo protegido por ele.
Enquanto isso, o Judiciário — especialmente o Supremo Tribunal Federal — assume protagonismo crescente. Decide o que o Legislativo não decide. Ocupa o espaço que a política abandona.
E quando poucos concentram decisões estruturais, a sensação não é de proteção.
É de distância.
Mas o que mais me preocupa não está nos prédios de Brasília.
Está nas mesas de jantar.
Famílias se rompem.
Amigos se ofendem.
Desconhecidos se odeiam.
Pessoas brigam.
Humilham.
Se agridem.
Algumas chegam ao extremo.
Tudo para defender grupos que, no exercício real do poder, não vivem o sacrifício que pregam.
Não enfrentam as renúncias que exigem.
Não cedem na mesma medida em que pedem que o povo ceda.
É curioso.
Os que mais se exaltam são os que menos participam das decisões.
Defendem estruturas das quais não fazem parte.
Protegem privilégios que nunca irão compartilhar.
A política virou identidade.
Virou torcida.
Virou trincheira.
E nós aprendemos a odiar com mais facilidade do que a ouvir.
Minha inquietação não é partidária.
É moral.
Não temo um golpe.
Temo a erosão lenta da coerência.
Porque nenhuma democracia se sustenta apenas na formalidade das suas leis.
Ela se sustenta na percepção de justiça.
E quando o discurso não encontra eco na prática, o que se rompe não é o sistema.
Somos nós.
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