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Mostrando postagens de março, 2026

Passarinhos

Há um passarinho pequeno demais para entender por que o céu, às vezes, desaba de dentro para fora. Ele abre as asas sem saber que o vento que o sustenta… também está se partindo. Ao redor, felinos. Não escondidos — vivos, pulsando, respirando perto demais. Olhos que brilham como promessa e ameaça no mesmo instante. Carregam nos dentes não só fome, mas a desordem de tudo que nunca aprenderam a conter. E o vento… insiste. Se espreme entre frestas nas rochas de uma caverna escura e úmida, raspando em si mesmo para atravessar espaços que não foram feitos para ele existir. Se dobra, se fragmenta, se distorce — tentando alcançar espaços que não lhe pertencem e onde, no fundo, ele nunca fez questão de estar. O vento não tem corpo, mas sente e sangra. Sente cada avanço dos felinos como lâmina. Sente cada tremor do passarinho como um colapso inteiro. E sopra. Sopra mais forte do que deveria. Mais do que consegue. Mais do que aguenta. Porque, no fundo, acredita numa mentira silenciosa: que, se s...

Fazer as pazes

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Existe um sofrimento silencioso que quase ninguém vê. Ele vive dentro da cabeça de quem insiste em revisitar o próprio passado, como se fosse possível voltar no tempo e corrigir cada escolha feita. É o sofrimento de quem olha para a própria história e pensa: eu poderia ter sido mais. Então começa um tribunal interno. Sem defesa. Só acusação. Cada erro vira prova. Cada falha vira sentença. Cada arrependimento vira peso. A mente, quando cansada, pode ser cruel. Ela revisita decisões antigas com a lucidez que só veio anos depois. E em meio a este caos, nos esquecemos de algo fundamental: Todos nós tomamos decisões com o nível de consciência que tínhamos naquele momento. Não com o que sabemos hoje. Ninguém escolhe errado sabendo exatamente tudo o que vai acontecer. Só depois o tempo chega trazendo maturidade, compreensão e, às vezes, arrependimento. Mas o passado não pode ser reescrito. E quem se questiona demais quase sempre também se importa demais. Talvez ninguém esteja queb...

Reflexo da opressão

Assusta-me a crescente normalização de uma ignorância ideológica que se espalha silenciosa, mas ferozmente, na mente de muitos. Pessoas comuns, como quaisquer outras, mas que, ao se alinharem confortavelmente à direita de uma linha imaginária, passam a se acreditar moralmente superiores — como se a posição política lhes conferisse caráter. O problema não está em divergir, mas em negar. Negar que existe opressão, que há desigualdade, que nem todos partem do mesmo ponto. O verdadeiro risco começa quando essa negação ganha forma de discurso e se espalha como verdade. Dizer que não há opressor é uma forma sofisticada de perpetuar a opressão. É uma tentativa de apagar responsabilidades históricas, políticas e sociais. Quem afirma que a opressão não tem rosto, muitas vezes, o faz para evitar olhar no espelho. É assim que a opressão se preserva: camuflada, diluída em discursos sobre meritocracia, ordem e neutralidade. Ela se torna parte do cotidiano, até parecer normal. Mas, se a opressão não...