Passarinhos
Há um passarinho pequeno demais para entender por que o céu, às vezes, desaba de dentro para fora.
Ele abre as asas sem saber que o vento que o sustenta… também está se partindo.
Ao redor, felinos.
Não escondidos — vivos, pulsando, respirando perto demais.
Olhos que brilham como promessa e ameaça no mesmo instante.
Carregam nos dentes não só fome,
mas a desordem de tudo que nunca aprenderam a conter.
E o vento… insiste.
Se espreme entre frestas nas rochas de uma caverna escura e úmida,
raspando em si mesmo para atravessar espaços que não foram feitos para ele existir.
Se dobra, se fragmenta, se distorce —
tentando alcançar espaços que não lhe pertencem
e onde, no fundo, ele nunca fez questão de estar.
O vento não tem corpo, mas sente e sangra.
Sente cada avanço dos felinos como lâmina.
Sente cada tremor do passarinho como um colapso inteiro.
E sopra.
Sopra mais forte do que deveria.
Mais do que consegue.
Mais do que aguenta.
Porque, no fundo, acredita numa mentira silenciosa:
que, se soprar o suficiente,
o mundo se reorganiza.
Mas não...
Os felinos continuam sendo felinos.
O passarinho continua sendo frágil.
E o vento…
o vento começa a falhar.
Não de repente —
mas em fissuras.
Em pausas.
Em um cansaço que não grita, mas corrói.
E então existe um abrigo.
Um lugar onde o vento encosta…
mas não consegue ficar inteiro.
Porque até ali ele chega em pedaços.
Chega carregando restos de tempestades que não eram suas.
Chega tentando ser leve…
mas já pesado demais para fluir.
E é nesse instante — silencioso, invisível —
que algo dentro do vento se rompe.
Não é desistência.
Não é fraqueza.
É o limite de quem tentou ser tudo…
em um mundo que nunca pediu permissão para desmoronar.
E ainda assim —
mesmo rasgado, mesmo falhando, mesmo exausto —
o vento não para.
Porque existe um passarinho que ainda respira.
E enquanto houver um único bater de asas…
mesmo quebrado —
o vento insiste em existir.
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