Reflexo da opressão
Assusta-me a crescente normalização de uma ignorância ideológica que se espalha silenciosa, mas ferozmente, na mente de muitos. Pessoas comuns, como quaisquer outras, mas que, ao se alinharem confortavelmente à direita de uma linha imaginária, passam a se acreditar moralmente superiores — como se a posição política lhes conferisse caráter.
O problema não está em divergir, mas em negar. Negar que existe opressão, que há desigualdade, que nem todos partem do mesmo ponto. O verdadeiro risco começa quando essa negação ganha forma de discurso e se espalha como verdade.
Dizer que não há opressor é uma forma sofisticada de perpetuar a opressão. É uma tentativa de apagar responsabilidades históricas, políticas e sociais. Quem afirma que a opressão não tem rosto, muitas vezes, o faz para evitar olhar no espelho.
É assim que a opressão se preserva: camuflada, diluída em discursos sobre meritocracia, ordem e neutralidade. Ela se torna parte do cotidiano, até parecer normal. Mas, se a opressão não tem culpados, por que ela pesa sempre sobre os mesmos corpos, os mesmos territórios, as mesmas vozes?
A invisibilização da opressão não é ignorância inocente — é estratégia. É uma forma de garantir que tudo permaneça como está, enquanto se finge que nada precisa mudar.
Comentários