Canto do Encontro que Não Houve


Antes do tempo aprender a nomear os gestos,
antes que a pele inventasse a coragem do toque,
houve lábios suspensos no intervalo do mundo,
carregando o sabor intacto
dos beijos que nunca aconteceram.

Não era ausência.
Era espera.

Havia no ar um perfume sem frasco,
um rastro invisível atravessando dias,
uma memória sem origem que insistia em existir como se já tivesse sido vivida.

E o corpo — esse cronista fiel do impossível — arrepiava-se não pelo que tocava, mas pelo que pressentia.

Assim nasceu o desejo:
não do encontro,
mas da promessa.

O desconhecido, então, ergueu seu trono.
Sentou-se à mesa,
ocupou o quarto,
deitou-se nos pensamentos com a intimidade dos que nunca partiram.

Como pode — perguntavam os dias —
o que nunca esteve ser tão presente?
Como pode o querer atravessar o nada
e ainda assim permanecer inteiro?

Seria fantasia,
essa arquitetura frágil da mente que constrói abismos e os chama de ponte?
Seria alucinação, um erro belo da consciência que confunde ausência com destino?

Ou haveria algo mais antigo, uma conexão que precede o toque, um fio invisível que ignora a matéria e escolhe apenas o sentido?

O herói desta história não empunha espadas.
Ele espera.

E esperar, aqui, é um ato de coragem.
Pois querer alguém que nunca esteve perto
é caminhar sem mapa,
é reconhecer o outro antes mesmo de vê-lo,
é carregar no peito uma presença que não pede permissão ao real.

E mesmo assim — ou talvez por isso essa — presença permanece.
Não como engano. Mas como prova de que há encontros que não precisam acontecer para serem eternos.

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