Eu, paradoxo.
Sou, antes de tudo, o efeito contínuo de minhas próprias contradições.
Habito uma mente dividida em compartimentos conscientes:
alguns que faço questão de abrir, outros que mantenho selados não por medo, mas por prudência.
Sou o resultado de inúmeras versões de mim mesmo e, ainda assim, estranho até para quem sou hoje.
Reconheço meus traços, mas já não confio inteiramente na permanência de nenhum deles.
Carrego em mim aquilo que fui, aquilo que abandonei, e aquilo que ainda não tive coragem suficiente para me tornar.
Sou feito de forças opostas que não se anulam:
ímpetos e recuos, lucidez e autoengano, ímpares desejos de ordem e de caos.
Não sou estável.
Sou processo.
Em cada pessoa que encontro, manifesto um fragmento distinto de mim.
Em cada escolha, sacrifico versões inteiras que jamais voltarão a existir.
Sou memória para alguns, hipótese para outros, e para mim mesmo, uma pergunta em construção.
Posso ser generoso e cruel na mesma semana.
Tolerante ao discurso e rígido na intimidade.
Capaz de compreender o mundo e incapaz de compreender a mim com igual precisão.
Não me defino por virtudes.
Nem por falhas.
Defino-me pelo movimento entre elas.
E talvez por isso eu tenha desistido de me explicar.
Há uma tranquilidade rara em aceitar que nem tudo o que existe em nós foi feito para ser entendido.
Que certas contradições não pedem solução, apenas convivência.
Hoje, minha única ambição é esta:
estar em paz com o fato de que sou incompleto, mutável, e inevitavelmente incoerente.
Não preciso ser coerente para existir.
Não preciso ser compreendido para ser legítimo.
Basta-me continuar sendo.
E permitir que cada consciência que me observe construa, a seu modo, a versão de mim que conseguir suportar.
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