Geometria das Mares
Há quem atravesse
o mundo em linhas retas.
Outros nasceram litoral.
Carregam continentes nas costelas,
mas obedecem à lua.
Há dias em que o horizonte
é uma disciplina antiga:
cada coisa repousa
na exata distância de si.
Depois, sem que o céu consulte ninguém, a maré recolhe o próprio sal.
Os portos permanecem,
mas nenhuma embarcação acredita neles.
Então vem a tempestade.
Não a que derruba telhados,mas a que inaugura oceanos dentro de um único peito.
As bússolas enlouquecem.
As palavras pesam mais que as pedras.
Um gesto comum ganha a gravidade de um eclipse.
É curioso.
Os cartógrafos insistem em desenhar fronteiras, como se a água aprendesse geometria.
Mas há territórios
que existem apenas enquanto transbordam.
Talvez seja por isso
que ainda existam
navios lançando âncora
onde o fundo nunca termina.
Não há porto.
Apenas mar.
Às vezes espelho,
às vezes abismo,
quase nunca margem.
O mar não promete
nem permanência,
nem calmaria.
E, no entanto,
algumas embarcações
jamais procuraram terra.
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