Geometria das Mares
Há quem atravesse o mundo em linhas retas. Outros nasceram litoral. Carregam continentes nas costelas, mas obedecem à lua. Há dias em que o horizonte é uma disciplina antiga: cada coisa repousa na exata distância de si. Depois, sem que o céu consulte ninguém, a maré recolhe o próprio sal. Os portos permanecem, mas nenhuma embarcação acredita neles. Então vem a tempestade. Não a que derruba telhados,mas a que inaugura oceanos dentro de um único peito. As bússolas enlouquecem. As palavras pesam mais que as pedras. Um gesto comum ganha a gravidade de um eclipse. É curioso. Os cartógrafos insistem em desenhar fronteiras, como se a água aprendesse geometria. Mas há territórios que existem apenas enquanto transbordam. Talvez seja por isso que ainda existam navios lançando âncora onde o fundo nunca termina. Não há porto. Apenas mar. Às vezes espelho, às vezes abismo, quase nunca margem. O mar não promete nem permanência, nem calmaria. E, no entanto, algumas embarcações jamais...