A DIREITA MERECE RESPEITO. MAS SUAS CONTRADIÇÕES MERECEM SER QUESTIONADAS.
A Direita merece respeito. Assim como a Esquerda e o Centro. Mas respeitar uma ideologia não significa deixar de questionar suas contradições.
Defende a liberdade econômica. E isso é legítimo. Mas o que acontece quando a privatização de serviços essenciais faz com que a população precise pagar diretamente por aquilo que antes era financiado por recursos públicos? E os impostos, deixam de existir? Não. A população continua pagando impostos e, em determinados casos, passa a pagar também pelo uso do serviço.
Pensemos na BR-040, no trecho entre Sete Lagoas e Belo Horizonte. É inegável que a rodovia melhorou. Mas, para quem precisa utilizá-la, existe um custo. E o que acontece com a pessoa que precisa ir a Belo Horizonte para uma consulta médica, uma entrevista de emprego ou uma emergência familiar, mas não tem dinheiro para pagar o pedágio?
Ela deixa de ir? Procura uma alternativa que talvez nem exista de forma viável? E, se passar sem pagar, poderá ser multada.
O direito de ir e vir continua existindo formalmente, mas a possibilidade concreta de exercê-lo pode ser limitada pela condição financeira. A lei admite a cobrança de pedágios, mas isso não impede que questionemos a justiça social desse modelo.
A rodovia pode estar melhor, mas será que todos conseguem usufruir dessa melhoria?
Afinal, de que adianta uma infraestrutura de qualidade se parte da população não tem condições de pagar para utilizá-la?
Defende a preservação das tradições, dos costumes e dos valores familiares. Mas essa defesa precisa valer para todos ou apenas para quem pensa diferente? O discurso moral é frequentemente utilizado para condenar determinadas escolhas, enquanto comportamentos como adultério, bebedeiras, relações sexuais sem compromisso, filhos fora do casamento, agressões e divórcios também aparecem entre pessoas que se apresentam como defensoras da família tradicional.
Não se trata de condenar a vida privada de ninguém. Cada adulto deve ter liberdade para fazer suas escolhas, respeitando os direitos dos outros. A questão é a coerência: por que algumas pessoas são julgadas com rigor enquanto outras recebem compreensão quando praticam aquilo que condenam?
Defende a influência dos princípios religiosos nas políticas públicas. Mas quais princípios? Os de qual religião? Quem decide qual fé está certa ou errada? Em um país plural, onde pessoas professam diferentes religiões e outras não seguem nenhuma, por que uma crença específica deveria determinar os direitos de todos?
A liberdade religiosa também significa liberdade para não seguir uma religião. O Estado deve garantir que as pessoas possam exercer sua fé sem transformar uma crença particular em obrigação para toda a sociedade.
Defende a soberania nacional, o patriotismo e os interesses do Brasil. E isso seria admirável se esses princípios fossem aplicados de maneira coerente. Mas como conciliar o patriotismo com articulações políticas que buscam apoio de governos estrangeiros para pressionar instituições brasileiras, mesmo quando isso pode prejudicar interesses nacionais?
Como conciliar a defesa da Pátria com iniciativas que questionam o resultado das eleições, atacam as instituições democráticas ou buscam apoio para uma ruptura institucional?
Patriotismo não deveria ser apenas vestir a camisa da seleção, levantar a bandeira ou cantar o hino. Deveria significar, acima de tudo, compromisso com o país, com sua soberania e com a vontade democraticamente expressa de seu povo.
Defende a valorização das Forças Armadas. E esse é, de fato, um tema importante. Mas a história também precisa ser lembrada.
Foram setores das próprias Forças Armadas que participaram do golpe de 1964, instaurando uma ditadura que durou 21 anos.
Mais de cinco décadas depois, militares voltaram a aparecer nas investigações sobre articulações para impedir a posse do presidente eleito e promover uma ruptura democrática após as eleições de 2022.
Isso não significa responsabilizar todos os militares pelas ações de determinados integrantes. Significa reconhecer que nenhuma instituição deve estar acima da crítica, da Constituição ou da responsabilidade por seus atos.
Valorizar as Forças Armadas é exigir que cumpram sua missão constitucional, defendam a soberania nacional e respeitem a ordem democrática. Não é conceder a seus integrantes o direito de decidir, por conta própria, os rumos políticos do país.
O problema nunca foi ser de direita, de esquerda ou de centro. O problema é defender princípios apenas quando eles favorecem os nossos interesses.
A liberdade econômica precisa considerar as condições de quem não pode pagar. A defesa da família precisa ser coerente. A religião não pode servir de justificativa para retirar direitos de quem acredita diferente. O patriotismo precisa estar acima dos interesses particulares. E as instituições precisam respeitar os limites constitucionais.
Nenhuma ideologia está livre de contradições. Nenhum partido, líder ou movimento merece uma autorização permanente para agir sem ser questionado.
Respeitar quem pensa diferente não significa silenciar diante de suas incoerências.
A democracia não exige que concordemos uns com os outros. Exige que tenhamos liberdade para discordar, responsabilidade para argumentar e coragem para cobrar coerência, inclusive daqueles que estão do nosso lado.
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