A chuva, a varanda e eu.
Havia uma beleza quase exagerada naquele lugar.
A chuva caía fina, delicada, como se tivesse sido cuidadosamente escolhida para não atrapalhar ninguém. Molhava as folhas, escurecia a madeira, fazia as montanhas ao longe desaparecerem na escuridão. As luzes dos apartamentos se espalhavam pelo terreno em pequenos pontos amarelos, refletindo nas superfícies molhadas e dando ao lugar uma aparência quase irreal. O cheiro de terra molhada subia do jardim e se misturava ao ar fresco da noite.
Era o tipo de lugar que as pessoas fotografavam. O tipo de lugar que faria qualquer um pensar que tinha tido sorte de estar ali. Talvez fosse justamente por isso que eu não conseguisse entender o que estava acontecendo comigo. Não havia nada de errado com aquele lugar. Pelo contrário. Tudo parecia ter sido colocado no lugar certo: a natureza, a chuva, as luzes, o frio agradável da noite, as pessoas certas ao redor. E ainda assim, sentado naquela varanda, tudo o que conseguia pensar era em voltar para casa.
Lá embaixo, as pessoas continuavam passando. Algumas caminhavam sob a chuva fina sem se importar com ela; outras permaneciam próximas às entradas dos apartamentos, conversando em grupos, rindo, se apresentando, descobrindo umas às outras. Era possível perceber a empolgação nas vozes mesmo sem conseguir ouvir exatamente o que diziam.
De vez em quando, uma risada mais alta atravessava a distância, seguida por outras vozes, e por alguns segundos eu conseguia imaginar as histórias que estavam começando ali. Pessoas que talvez tivessem chegado naquele lugar sem conhecer ninguém e que, naquela noite, já pareciam encontrar alguma coisa umas nas outras. Eu observava tudo com uma espécie de atenção tranquila, reconhecendo a beleza daquela cena sem conseguir desejar fazer parte dela.
E talvez seja isso que mais incomode.
Não existe uma tristeza suficientemente grande para justificar a vontade de ir embora. Não existe raiva, decepção ou qualquer pessoa de quem eu esteja tentando fugir. Ninguém fez nada contra mim. Não aconteceu nada que pudesse ser apontado como a razão para eu estar ali, sozinho, enquanto todo mundo parece aproveitar a noite. É apenas uma vontade de estar longe. Uma vontade que não vem acompanhada de uma explicação convincente. E, quando não existe uma causa clara para aquilo que sentimos, é muito fácil começar a procurar o problema dentro de nós mesmos.
Foi assim que comecei a me sentir estranho.
Não exatamente por estar estranho, mas por ser estranho. Diferente. Como se houvesse alguma coisa em mim que não encontrasse correspondência naquele lugar. Eu conseguia enxergar a beleza que estava diante dos meus olhos, conseguia compreender a alegria das pessoas, conseguia até desejar, em algum nível, que aquilo fosse suficiente para mim. Mas havia uma distância que eu não sabia atravessar. Como se estivesse diante de uma porta aberta e, ainda assim, não conseguisse dar o primeiro passo para dentro.
Talvez por isso eu tenha começado a pensar tanto em casa. Não era exatamente saudade. Era uma espécie de desejo pelo conhecido. Pela ausência de expectativa. Pelo silêncio que não exige participação. Em casa, ninguém espera que eu converse porque todos estão conversando. Ninguém espera que eu sorria porque o momento pede um sorriso. Não preciso encontrar assunto, acompanhar uma conversa ou decidir se estou sendo agradável o suficiente. Posso simplesmente existir. E, naquele momento, essa possibilidade parecia muito mais atraente do que qualquer coisa que aquela noite pudesse me oferecer.
O mais estranho é que não quero fugir das pessoas porque não gosto delas. Algumas são exatamente o tipo de pessoa que eu gostaria de conhecer melhor em outras circunstâncias. O problema parece estar em mim, em algum lugar que não sei localizar. Estar entre pessoas novas exige uma disponibilidade que, naquela noite, simplesmente não existe. Talvez seja preciso uma quantidade de energia que eu não tenho. Talvez seja apenas uma dessas fases em que a vontade de se recolher fica maior do que a vontade de descobrir o que existe do lado de fora. Seja o que for, não parece uma escolha racional. É mais parecido com uma maré que chega sem pedir licença e muda, por algumas horas, a distância entre mim e o mundo.
Houve uma conversa sobre isso.
Meu psiquiatra tentou explicar o funcionamento do cérebro, as oscilações do humor, a atenção, a impulsividade, as particularidades de quem convive com TAB e TDAH. Tudo aquilo fazia sentido. Não era uma explicação ruim. Só não havia muita novidade ali. Eu já conhecia boa parte daqueles mecanismos, já tinha lido, pensado e conversado sobre eles outras vezes. E talvez essa seja uma das coisas mais frustrantes de compreender racionalmente o que acontece comigo: saber o nome de uma coisa não faz com que ela deixe de doer.
Eu sei que algumas crises fazem parte disso. Sei que existem períodos em que o cérebro parece escolher caminhos que eu mesmo não escolheria. Sei que algumas dessas sensações não significam necessariamente que existe algo errado acontecendo naquele instante. Mas saber disso não impede que algumas delas me arrebentem. Existe uma diferença enorme entre compreender o que está acontecendo e conseguir suportar o que está acontecendo. Às vezes, a explicação chega inteira, organizada, quase didática, enquanto a experiência continua sendo completamente desorganizada por dentro.
Então fico ali.
A varanda, a chuva, as luzes dos apartamentos e aquelas vozes distantes formam uma espécie de cenário perfeito para alguém que deveria estar feliz. E talvez eu esteja feliz em algum lugar, de alguma maneira que não consigo alcançar naquela noite. Talvez exista em mim alguma capacidade de reconhecer a beleza mesmo quando não consigo senti-la completamente. Talvez isso já seja alguma coisa.
Uma gota escorre pela folha de uma planta próxima à varanda, acumula-se na ponta e permanece ali por alguns segundos antes de finalmente cair. Fico acompanhando aquele pequeno movimento sem nenhuma razão especial. Pela primeira vez naquela noite, não tento descobrir por que estou daquele jeito. Não tento me convencer de que deveria descer, conversar, rir ou aproveitar. Também não tento transformar aquilo em alguma grande lição sobre a vida. Apenas aceito que, naquele momento, estar sozinho é o que consigo fazer.
As pessoas continuam passando lá embaixo. A chuva continua caindo. As luzes continuam acesas nos apartamentos, algumas se apagando aos poucos enquanto outras permanecem iluminadas. A noite avança sem se importar muito com o que cada um está sentindo. E existe algo estranhamente confortável nisso. O mundo não precisa que eu participe dele o tempo inteiro. Ele continua acontecendo mesmo quando fico alguns passos para trás.
Talvez eu só precise disso agora.
Não de uma resposta, nem de uma explicação nova, nem de alguém me dizendo que vai passar. Talvez precise apenas de um pouco de silêncio e da liberdade de não precisar estar bem no lugar em que, teoricamente, deveria estar bem.
A casa ainda está longe.
Mas, por enquanto, permaneço na varanda.
Sozinho, ouvindo ao longe a felicidade dos outros, enquanto a chuva fina muda lentamente a paisagem.
E, pela primeira vez naquela noite, não sinto necessidade de ir embora imediatamente.
A chuva está bonita.
Por enquanto, isso basta.
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