Eles não mudaram tanto.
Outro dia, sentado em uma pizzaria, observei alguns adolescentes.
Nada muito diferente do que já vi dezenas de vezes.
Um deles levantou, boné torto, postura de quem não pede licença pra existir, saiu pra fumar.
A namorada, delicada, bem arrumada — quase um contraste vivo.
Na mesma mesa, outros casais. Alguns mais quietos, mais contidos, com aquele ar de “certinhos”.
E ali, sem perceber, eu voltei no tempo.
Porque era assim antes também.
Sempre foi.
O grupo nunca foi homogêneo.
Sempre houve o deslocado, o intenso, o discreto, o que tenta impressionar, o que observa em silêncio.
A juventude muda de estética, muda de linguagem… mas não muda tanto na essência.
O que mudou não foi o adolescente.
Foi o entorno.
Hoje, o professor se cobra para inovar o tempo todo.
Quer engajar, quer ser diferente, quer competir com um mundo que grita mais alto que qualquer sala de aula.
Mas, no meio disso, algo se perdeu no caminho.
O professor vira um “animador de plateia”.
O conteúdo perde densidade.
A autoridade pedagógica fica diluída.
E aí vem a frustração: tenta-se fazer mais, com menos base.
E o aluno continua sendo… adolescente.
Nem sempre vai querer, nem sempre vai se interessar — como sempre foi.
O sistema também mudou.
Mudou de forma mais silenciosa… e mais profunda.
É o sistema que reduziu o custo do erro.
E quando você diminui drasticamente o impacto das consequências:
a reprovação vira exceção,
o esforço deixa de ser requisito,
o “tanto faz” começa a funcionar.
O aluno percebe.
Pode não dizer, pode não racionalizar… mas percebe.
E se funciona sem esforço, por que se esforçar?
Não é que o jovem tenha piorado.
É que o ambiente passou a exigir menos dele.
No meio disso, a família tenta proteger.
Evitar que o filho sofra o que sofreu.
Blindar contra frustrações que um dia doeram demais.
Mas, ao fazer isso, muitas vezes impede exatamente aquilo que forma alguém:
a frustração que ensina,
o limite que organiza,
a responsabilidade que constrói.
Criam filhos mais protegidos…
mas menos preparados.
E aí vem o erro mais comum: procurar um culpado único.
Não são só os pais.
Não é só a escola.
Não é só o sistema.
É o conjunto.
É o acúmulo silencioso de pequenas mudanças que, somadas, transformam tudo.
Por isso a sensação estranha:
olhamos para os adolescentes de hoje e reconhecemos muito do que fomos.
Mas, ao mesmo tempo, sentimos que algo está fora do lugar.
E está.
Porque eles continuam sendo jovens.
Mas o mundo ao redor deles…
já não cobra, não sustenta e, muitas vezes, nem orienta como antes.
E talvez seja isso que mais incomoda:
não é sobre quem eles são.
É sobre o que estão deixando de se tornar.
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