Quando a morte vira resposta


Vi uma reportagem em que um garoto de 13 anos foi assassinado.

No vídeo que acompanhava a matéria, ele aparecia roubando uma mulher. Ela caía no chão enquanto ele fugia com a bolsa. A cena é dura. E não foi um caso isolado: segundo a própria reportagem, ele já acumulava mais de vinte ocorrências semelhantes.

Isso precisa ser dito sem rodeio. Houve vítimas. Muitas. Gente que foi assaltada, que sentiu medo, que foi ferida física ou emocionalmente. Ignorar isso seria desonesto.

Mas existe outra camada que não pode ser apagada.

Estamos falando de um garoto de 13 anos com mais de vinte passagens. Isso não surge de repente. Isso é um processo. Um acúmulo de falhas que começa muito antes do primeiro roubo: ausência de estrutura familiar, falta de acompanhamento, escola que não conseguiu reter, políticas públicas que não alcançaram, um ambiente onde o crime vira alternativa — às vezes a única visível.

Em algum momento, esse garoto deixou de ser visto como alguém a ser recuperado e passou a ser tratado como um problema a ser contido.

E então ele morreu.

O que mais me chamou atenção não foi só a história. Foram os comentários. Pessoas comemorando a morte. Tratando como solução. Como se aquilo fosse justiça sendo feita.

Não é.

É compreensível que exista revolta. Ninguém quer viver com medo, ninguém aceita ser vítima. Mas transformar a morte de um adolescente em motivo de celebração revela algo mais profundo: um esgotamento coletivo que começa a confundir vingança com justiça.

Porque a morte dele não resolve o problema que o criou.

As condições que levaram um garoto de 13 anos a esse caminho continuam existindo. A ausência, a negligência, a desigualdade, a falta de oportunidade — nada disso desaparece com o fim de uma vida. Pelo contrário, permanece ali, pronto para produzir outros casos.

Não se trata de defender o que ele fez.
Trata-se de recusar explicações simplistas.

Quando a gente aceita que a morte de um adolescente pode ser celebrada, a gente também aceita, mesmo que de forma silenciosa, que algumas vidas já estavam perdidas antes mesmo de terminar.

E isso diz muito mais sobre a sociedade do que sobre ele.

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