Órbitas que não retornam
Há pessoas que simplesmente escolhem sair das nossas vidas.
Não explicam.
Não elaboram.
Não sustentam o próprio gesto.
Apenas saem.
Fecham a porta com a naturalidade de quem troca de sala, como se sentimentos fossem móveis fáceis de substituir. Não se perguntam sobre o impacto, não dimensionam o silêncio que deixam, não calculam o que fica suspenso no ar. Partem.
E, ironicamente, algum tempo depois questionam por que não fomos atrás.
Por que não insistimos.
Por que não lutamos.
Como se a responsabilidade pela ruptura fosse de quem permaneceu.
Mas há uma diferença fundamental entre abandonar e ficar.
Quem sai toma uma decisão.
Quem fica apenas respeita.
Existe uma maturidade difícil — quase cirúrgica — em compreender que insistir onde alguém deliberadamente se ausentou não é amor, é invasão. Não é cuidado, é negação da realidade.
O mundo está cheio de pessoas que confundem liberdade com indiferença.
Que trocam vínculos por possibilidades imaginadas.
Que enxergam ameaça onde existe potência.
Que não suportam aquilo que não controlam.
E, quando a relação não retorna, tentam inverter a lógica: culpam quem não correu atrás. Como se correr atrás fosse prova de valor. Como se dignidade fosse desinteresse.
Talvez o mais difícil não seja aceitar que alguém foi embora.
É aceitar que não éramos o centro da escolha dela.
E isso não é ofensa. É física.
Desde Galileu Galilei sabemos que não somos o centro do universo. A Terra gira. As órbitas se reorganizam. Sistemas inteiros seguem seu curso sem pedir nossa permissão.
Algumas pessoas são assim: corpos celestes que cruzam nossa trajetória por um tempo e depois seguem a própria órbita.
Não é sobre egoísmo universal.
É sobre movimento.
O que não nos cabe é aceitar a culpa por algo que não provocamos.
Se alguém fechou a porta, não fomos nós que saímos.
Nós apenas continuamos vivendo do lado de dentro.
E continuar vivendo — com lucidez e dignidade — é, muitas vezes, a resposta mais madura que podemos oferecer.
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