Intervalos que me moldam




Tenho um blog que talvez ninguém leia, como cartas engavetadas para destinos que nunca cheguei a visitar.

Uma estante de livros silenciosos, mundos que me aguardam sem pressa, histórias que poderiam ter sido minhas, mas dormem, intactas, à espera do toque.

No armário, cafés que nunca provei carregam aromas de manhãs que não vivi, conversas que não tive, afetos que não encontrei.

E na lista do streaming repousam vidas inteiras, caminhos possíveis, olhos que nunca cruzaram os meus, amores que não senti, despedidas que não doeram porque sequer aconteceram.

Carrego também aprendizados inacabados, lições que se insinuam, mas não se deixam pegar, como se a vida sussurrasse aos poucos, em capítulos que só existem quando eu ouso lê-los.

E ainda assim — ou talvez por isso — sou feito desse intervalo entre o que vivi e o que não alcancei, entre o que espero e o que deixo para depois.

Sou feito de começos empilhados, de intenções que florescem mais rápido do que meus passos podem acompanhar. Sou esse rascunho infinito, essa obra aberta que não teme faltar.

Porque, mesmo incompleto, sou inteiro. Mesmo sem ter vivido tudo, sou feito de tudo o que poderia ser.

E, no meio das ausências, há uma presença que pulsa: sou único, imperfeito, e absolutamente vivo.

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