Fora o eixo


Hoje acordei agitado, mas sem vontade de sair da cama. É uma combinação estranha: o corpo cansado, a mente acelerada e, entre os dois, uma vontade quase silenciosa de permanecer onde estou. Lutei contra esse primeiro impulso porque sei que, quando cedo a ele, corro o risco de permitir que um sentimento momentâneo ganhe uma força que não deveria ter.

Então me levantei.

Arrastado, mas me levantei.

Iniciei meu ritual matinal. Preparei o café, tomei banho, sentei-me à mesa em silêncio e tomei meu café, mas desta vez no modo automático, sem dar a ele a devida atenção. Escovei os dentes, passei protetor solar. Fiz aquilo que faço praticamente todos os dias. Talvez seja justamente por isso que esses pequenos rituais sejam importantes: quando minha cabeça não está funcionando direito, não preciso pensar muito para saber o próximo passo.

Mas hoje até isso pareceu mais difícil.

Cada alarme que tocava me lembrava de que meu tempo, no refúgio da minha casa, estava acabando. Eu precisava sair. Precisava voltar para o mundo. E minha atenção, que já não estava das melhores, começou a falhar de maneira quase irritante. Precisei refazer alguns passos para lembrar de coisas que normalmente não esqueço.

No caminho para o trabalho, coloquei meus óculos, os fones e uma música. Fui cantando durante o trajeto. Tenho certeza disso. O curioso é que não faço a menor ideia de qual música estava tocando.

Talvez essa seja uma das coisas mais estranhas e irritantes desses dias: estar presente fisicamente enquanto minha cabeça está em Nárnia.

Meus olhos estavam vermelhos, minhas pálpebras cansadas, mas minha mente estava a mil por hora. Enquanto tentava organizar tudo aquilo que precisava fazer durante o dia, lembrei que havia esquecido meu lanche na geladeira. Uma coisa pequena, quase insignificante. Mas, naquele momento, pareceu mais uma confirmação de que eu não estava funcionando direito.

Cheguei ao trabalho distraído. Não estava prestando muita atenção ao que acontecia ao meu redor. As pessoas estavam ali, as coisas estavam acontecendo, o dia estava começando, mas eu parecia não ter chegado completamente.

Era como se o download da minha alma ainda não tivesse sido concluído.

E até para escrever este texto encontro dificuldades. As palavras aparecem erradas, os pensamentos se perdem entre uma linha e outra e, algumas vezes, sei exatamente o que quero dizer, mas não consigo organizar a frase como deveria.

E isso me irrita.

Talvez essa seja a parte mais difícil de tudo: perceber minhas próprias limitações enquanto elas acontecem.

Eu sei como normalmente funciono. Sei que consigo prestar atenção, organizar meus pensamentos, lembrar das coisas, produzir. Quando isso não acontece, minha primeira reação é querer corrigir imediatamente. Fico irritado com o esquecimento, com a distração, com a dificuldade de encontrar uma palavra que, em qualquer outro dia, estaria facilmente disponível.

E a coisa chegou ao ponto crítico, até agora, quando comecei a revisar o que havia produzido. Em alguns momentos, tive a impressão de que o texto estava mudando enquanto eu lia, como se aquilo não fosse exatamente o que eu havia colocado no papel. Precisei voltar algumas vezes e reler tudo, porque já não estava reconhecendo a minha própria escrita. Por alguns instantes, parecia que eu não lembrava exatamente do que havia registrado poucos minutos antes.

É difícil explicar a sensação de ler algo que saiu da sua própria cabeça e, ainda assim, precisar conferir se aquilo realmente estava ali.

Existem dias em que acordo disposto, atento e cheio de energia. Existem outros em que levantar da cama já exige um esforço que ninguém percebe. Dias em que meu corpo parece pesado, minha cabeça parece cheia demais e até as tarefas mais simples precisam de uma concentração que normalmente não exigiriam.

Hoje é um desses dias.

E, por mais que eu tente — e eu certamente vou tentar —, provavelmente não será um dos meus melhores.

Eu até sei que não preciso transformar isso em um problema maior do que é. Mas explica isso para minha personalidade e minha mente…

É claro que não preciso estar bem todos os dias para seguir. Não preciso produzir no meu máximo para continuar sendo capaz. Não preciso transformar cada falha de atenção ou cada esquecimento em uma prova de que alguma coisa está errada comigo. Mas isso me deixa muito, mas muito irritado. E quanto mais eu tento, mais eu falho e, quanto mais eu falho, mais puto eu fico. Ciclo.

Hoje eu estou funcionando abaixo do meu normal. Muito abaixo. E ainda não são nem nove da manhã!

E tudo bem. Ou pelo menos deveria.

Lá no fundo, tento me convencer: “Vou fazer o que conseguir. Vou tentar não me irritar profundamente com aquilo que minha memória esquecer, com aquilo que minha atenção deixar passar e com aquilo que minha cabeça não conseguir organizar.”

Já tentou convencer sua mente de algo em que você, definitivamente, não acredita? Olha, é bem punk. A razão tentando colocar alguma ordem onde a razão está totalmente desconfigurada.

E talvez exista uma prova ainda mais concreta de tudo isso: estou há duas horas e meia tentando terminar este texto. Duas horas e meia para organizar pensamentos que, em outro dia, provavelmente teriam encontrado seu lugar muito mais rápido.

Talvez essa seja minha tarefa mais difícil hoje.

Não funcionar perfeitamente.

Apenas continuar.


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