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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Entre o que fomos e o que ainda seremos

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2025 não foi um ano para slogans. Foi um ano de fraturas expostas. Nada se resolveu por inteiro, quase nada terminou de fato. Seguimos vivendo numa espécie de parêntese histórico, em que o mundo parece sempre à beira de alguma coisa — sem saber exatamente de quê. O planeta continuou aquecendo, mas não apenas no termômetro. O clima político seguiu inflamado, as democracias testadas, a paciência coletiva rarefeita. As guerras não pediram licença ao calendário; atravessaram o ano com a mesma indiferença cruel com que atravessam a vida dos que nelas não mandam nada. Gaza seguiu sendo uma ferida aberta, a Ucrânia um lembrete incômodo de que a guerra voltou a ser “normal”, e o discurso da paz, cada vez mais, virou peça retórica de cerimônia oficial. A tecnologia, como sempre, correu na frente. A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a ser presença cotidiana — escrevendo textos, corrigindo provas, sugerindo diagnósticos, criando imagens que parecem sonhos alheios...

2026

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Se me fosse exigida uma única palavra para resumir o meu ano — exigência que aceito com reservas, porque os anos raramente cabem em palavras — eu diria, sem grande entusiasmo e sem falsa modéstia: superação. Não por heroísmo, mas por hábito. Há uma guerra silenciosa que se trava todos os dias, longe dos discursos e das fotografias: a que se estabelece entre viver, sobreviver e sonhar. Raramente vencemos as três ao mesmo tempo. Quando muito, fazemos acordos provisórios com duas delas. Poder-se-ia chamar o ano de vitória, ou de conquista, ou ainda de recomeço. Todas essas palavras servem, desde que usadas com parcimônia. A verdade é que os anos se parecem muito quando vistos de longe, e se diferenciam apenas quando examinados de perto — como as pessoas. Gente chega, gente vai. Sentimentos nascem com promessas exageradas e morrem, quase sempre, de causas naturais. Há decepções que nos educam, orgulhos que nos enganam, frustrações que nos revelam, e surpresas que, por descuido,...

Crítica ao meu pensamento.

Hoje, na escola em que trabalho, houve uma oração coletiva. Permaneci em silêncio. Não por indiferença ou desdém, mas por respeito. Respeito às pessoas, às crenças e ao espaço de cada um. Ainda assim, enquanto as palavras eram ditas, eu pensava. E pensar, para mim, é inevitável. Tentei manter uma postura intelectualmente honesta e eticamente respeitosa: silenciar por respeito ao outro, sem abdicar do pensamento crítico. As falas da oração me parecem tocar em alguns dos nós centrais da filosofia da religião e da ética, especialmente o problema do mal. Quando se diz “Deus está sempre ao nosso lado” ou “se aconteceu, foi porque Deus quis”, pressupõe-se um ser onipresente, onipotente e onisciente. O conflito surge exatamente aí: se esse ser pode tudo, sabe tudo e está em todo lugar, como conciliar essa presença com a brutalidade concreta do mundo? O argumento clássico é simples e incômodo: se Deus pode impedir o mal e não impede, Ele não é totalmente bom. Se quer impedir, mas não pode, não...

Onde o silêncio enterra o grito

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A cada instante, um sopro se dissolve como bruma ao amanhecer; um sorriso, ainda em esboço, recolhe sua promessa; um olhar, antes aceso, se apaga como uma estrela arrancada do céu antes da noite chegar. A cada dia, destinos que deveriam florir são ceifados pela raiz: filhos que jamais ouvirão canções de ninar, casas que perderão o cheiro do pão e do abraço, mesas que guardarão — para sempre — um vazio que ninguém aprenderá a preencher. E crianças… crianças que herdarão cicatrizes invisíveis, tatuadas no silêncio que lhes seguirá pelos corredores da vida. Nas margens escuras dessa sociedade febril, emergem criaturas disfarçadas de homens: predadores que carregam nos olhos a arrogância dos que confundem a própria sombra com poder. Recebem amor como quem recebe um dom divino, mas devolvem treva, ruína, ausência — uma violência que não nasce do impulso, mas da miséria da alma. São aqueles que tocam, sem entender, a sacralidade de uma vida que jamais lhes pertenceu. Aqueles que ...

Intervalos que me moldam

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Tenho um blog que talvez ninguém leia, como cartas engavetadas para destinos que nunca cheguei a visitar. Uma estante de livros silenciosos, mundos que me aguardam sem pressa, histórias que poderiam ter sido minhas, mas dormem, intactas, à espera do toque. No armário, cafés que nunca provei carregam aromas de manhãs que não vivi, conversas que não tive, afetos que não encontrei. E na lista do streaming repousam vidas inteiras, caminhos possíveis, olhos que nunca cruzaram os meus, amores que não senti, despedidas que não doeram porque sequer aconteceram. Carrego também aprendizados inacabados, lições que se insinuam, mas não se deixam pegar, como se a vida sussurrasse aos poucos, em capítulos que só existem quando eu ouso lê-los. E ainda assim — ou talvez por isso — sou feito desse intervalo entre o que vivi e o que não alcancei, entre o que espero e o que deixo para depois. Sou feito de começos empilhados, de intenções que florescem mais rápido do que meus passos podem acom...

Manifesto da minha espiritualidade

Não creio em um deus que tudo vê e tudo sabe, mas se cala diante das injustiças. Minha razão não aceita um ser que permita tanto sofrimento sob o pretexto de um plano invisível. Ainda assim, também não vejo na vida um acaso frio e vazio. Acredito em algo maior — não um ser, mas uma energia que flui, que vibra nas coisas simples: no céu que muda de cor, no silêncio que acolhe, nas folhas que dançam ao vento, nas formigas que seguem seu caminho. A vida, para mim, não tem um propósito fixo e imutável. Vamos criando e recriando sentido à medida que vivemos, errando, aprendendo e tocando quem cruza nosso caminho. Carrego valores como bússola: respeito, honra, compaixão, bondade, liberdade, coerência e sinceridade. Eles guiam meus gestos, mesmo quando minha forma de estar no mundo oscila entre a rispidez e a delicadeza. Sou feito de contraste, mas não abro mão da integridade. Me conecto comigo mesmo no silêncio, na solitude, nos detalhes que poucos param para ver. E me conecto com o mundo pe...